Sagitta

Escrito por 

Kant e a Biblioteca Grotesca

 

A Biblioteca Pública de Kista, localizada no subúrbio da capital sueca, acaba de ser eleita a melhor biblioteca do mundo. O que a levou a alcançar tal título? Três coisas: beleza, funcionalidade e empatia, que, no fundo, se reduzem a uma única: compromisso estético. Kista, embora não possua o melhor software de gestão de acervos do mercado, abocanhou o importante prêmio por ter tomado para si a missão de intensificar o deleite dos seus frequentadores. Num cenário idílico constituído por acervos, cafeteria, mídias, mobiliário arrojado e profissionais qualificados para lidar com a diversidade humana, tudo lá desperta e provoca os sentidos. Aplausos para os bibliotecários suecos.

Já aqui pelos trópicos, nada me resta senão me contentar com bibliotecas insípidas, surdas, mudas, agêusicas e invisíveis. A regra é essa. Não me sinto motivado a sair de casa para me enfurnar, numa tarde de sábado, em um salão de leitura calorento e monocromático. Tudo me parece tão insalubre – desde a cadeira démodée ao gris suicida das paredes – que cheguei a desaconselhar um amigo depressivo a ler o jornal diário no setor de referência de determinada biblioteca da Esplanada dos Ministérios.

É penoso observar que uma instituição cultural dedicada a tutelar a memória registrada, se revele tão pouco sensível em fomentar a sensibilidade plástica dos que a frequentam. E para os desavisados, garanto não estar sendo injusto; em minhas frequentes idas e vindas pelo país, observo estarrecido que nossas bibliotecas, de norte a sul, prestam culto devotado à feiura. Embora se trate de um discurso perigoso, deixo claro que nada me impede de lançar meus sentidos em direção aos cantos e centros de nossas bibliotecas, procurando capturar marcas de encanto ou de fealdade ali presentes. Dito de outro modo, posso afirmar, como Kant, que o belo é tudo aquilo que produz prazer. Agora nos resta responder, com a sinceridade devida e dolorosa, se pensaram em critérios de beleza quanto erigiram nossas bibliotecas.

E aqui entramos numa seara tão remota quanto Calímaco. Para muitos colegas, tamanho é documento e beleza é minúcia. Paira no inconsciente da categoria a ideia de que biblioteca é conjunto de documentos bibliográficos destinado a atender demandas de informação. No fundo, a premissa é que todo mundo que adentra pelos umbrais da biblioteca sabe, perfeitamente, o que deseja. Valora-se demais a palavra escrita ou a ausência dela, o silêncio. Desse modo, o impacto dos sentidos são absolutamente ignorados. Esquecem os bibliotecários que a relação entre razão (construção de um conhecimento prático) e intelecto (produção de teorias) é intermedida pela beleza, como abalizou Kant.

Soa-me burlesco alguns colegas estufarem o peito, orgulhosos da dimensão de seus acervos e, ao mesmo tempo, manifestarem uma indolência presunçosa diante de um fato assustador: o brasileiro frequenta cada vez menos nossas bibliotecas. É que mesmo os mais pobres preferem consumir seu tempo livre em algo realmente prazeroso, que eleve os seus sentidos, como tomar uma chopp na companhia de amigos ou assistir a um filminho no conforto do sofá de casa. Enquanto isso, nós, meio lunáticos e rocambolescos, investimos em arquétipos de feiura.

É bom deixar claro que o nosso problema não se restringe, meramente, ao descuido com o mobiliário carcomido ou a escuridão nauseabunda dos espaços internos, mas de uma institucionalização tacanha do não desfrute, manifesto tanto na ordenação retrógada dos acervos, passando pela antipatia patológica de certos bibliotecários e culminando no discurso monocórdico do silêncio czarista. Os gregos antigos acreditavam na indissociabilidade da beleza e da bondade, a ponto de cunhar o termo kalokagathia, síntese dessas duas virtudes. Adoraria que as bibliotecas brasileiras funcionassem dentro dessa perspectiva aristotélica, apoiando os usuários a viverem de acordo com as suas máximas potencialidades. Mas, como gerar bondade – aqui compreendida como todo movimento destinado a auxiliar o homem a se assumir senhor de sua própria história – em espaços erigidos sob o descaso da beleza? O desdém, consciente ou não, fruto, quem sabe, de uma formação excessivamente tecnicista nas escolas de Biblioteconomia, reduziu nossos espaços de trabalho a balcões de empréstimos de livros ou, ainda, em salões destinados a concurseiros. As bibliotecas brasileiras me metem medo: elas chacinam os sentidos, castram o desejo e pulverizam a libido.

Enquanto escrevo estas palavras, surge em minha mente uma proposta simples dirigida aos bibliotecários, que não envolve grandes somas de dinheiro ou de gente envolvida: procurem estabelecer uma relação audaciosa e harmônica entre acervos, mobiliários, espaços e mídias, valorando a permanência do usuário nas dependências da biblioteca, independentemente dele estar consumindo seu tempo na leitura de Ana Karênina ou saboreando, na lanchonete, uma xícara de chá de hortelã. Desse modo, nossas bibliotecas sobreviverão, e Kant, lá do Elísio, piscará, orgulhoso, para nós.

Cristian Santos

Sobre o autor: Cristian Santos é Pós-doutorando em História pela Casa de Rui Barbosa. Doutor em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília. Mestre em Ciência da Informação, graduado em Filosofia, Tradução, Biblioteconomia e Letras (Língua e Literatura Francesas). Foi bibliotecário do Superior Tribunal de Justiça durante dez anos. Atualmente é bibliotecário da Câmara dos Deputados.