Sagitta

Maya, a bibliotecária amargurada

cristian   por Cristian Santos

 

A inflação de papel também chegou lá em casa. Nos últimos anos, minha biblioteca cresceu de tal modo que as estantes se revelaram escassas. Acabei apelando para a criatividade. Separei a coleção em dois espaços: numa sala branca, intitulada de paradesha, expus as obras mais preciosas, segundo os critérios estabelecidos pela Biblioteca Nacional ou, simplesmente, por motivos afetivos; o restante dos livros foi acondicionado em caixas de papelão empilhadas numa pequena sala de piso verde batizada de limbus.

Todo sábado, antes do sol se pôr, visto minha calça de algodão cru e, descalço, passeio solenemente pelo meu jardim bifurcado. Ainda não me diagnosticaram psicótico por agir assim, talvez pelo fato de jamais ter confessado sofrer espasmos ao folhear A Gravidade e a Graça, ver Marguerite Porete durante a leitura de seu Mirouer e chorar convulsivamente, pela nonagésima vez, com a infelicidade de Ivan Ilitch. Apesar de provar enorme deleite com estas experiências, enfrento os dezesseis degraus que me levam a biblioteca por um fim mais nobre e menos místico.
Exerço a arte da crítica, o que me converte num bibliotecário de fato. Identifico temáticas que passaram a afetar a minha vida nos últimos meses. A partir daí, chafurdo as mãos nas caixas, introduzindo na sala branca as obras selecionadas, o que me obriga a lançar outras ao limbus. No fundo, brinco de Deus, condenando e salvando discursos, eliminando autores e fazendo-os reviver pelo simples toque dos meus dedos.

É verdade que a atividade em questão envolve riscos. Num dia desses, por exemplo, encontrei sete pérolas perdidas no fundo de uma das caixas. Eram livros de Biblioteconomia, doações da Maya, uma colega de trabalho que ao me entregá-los, fez questão de justificar seu ato: frustrada, pretendia apagar de sua vida qualquer lembrança da profissão abraçada duas décadas antes. Naquela manhã cinzenta, alvejei de perguntas a pobre catalogadora. Afinal de contas, a frustração é definida como malogro, e não encontrava o menor indício de fracasso naquela senhora de meia idade e bem remunerada. Terminei o interrogatório com as mãos cheias de livros e sem resposta alguma.

Recentemente nos reencontramos. Após me perguntar sobre práticas de meditação e eu por suas últimas férias, entramos no campo minado da profissão. Continuava deprimida, desejando, simplesmente, completar o tempo para se aposentar. Dessa vez, compreendi sua dor e me solidarizei, conservando o silêncio. Não é que tenha perdido a ousadia, mas a última edição do Retratos da Leitura no Brasil (2011) me levou a associar a crise de minha amiga a um quadro social que afeta, desgraçadamente, os 19 mil bibliotecários brasileiros na ativa, inclusive a mim.

Como não padecer ao constatar que o número de não leitores continua aumentando no país, embora 65% dos entrevistados afirmem, lunaticamente, que a leitura ajuda a vencer na vida? É desesperador saber que 76% de nossos compatriotas não frequentam biblioteca, embora sua grande maioria saiba da existência de uma em sua cidade (67%) e a considera de fácil acesso (71%). Minha pressão arterial subiu horrores ao tomar ciência de que apenas 3% dos brasileiros frequentariam uma biblioteca caso ali encontrasse um bom bibliotecário. Recuperado, concluí: foi o desprestígio que amargurou Maya. Não a julgo. A invisibilidade social tende a ser mais dolorosa que a própria rejeição.

Nas últimas décadas, perdemos espaço no inconsciente coletivo, o que pode estar vinculado a nossa incapacidade ou teimosia de abandonar a ideia de que biblioteca é lugar destinado a gente bem-comportada e razoavelmente inteligente. A relação que o brasileiro comum estabelece com a biblioteca é de absoluto estranhamento. Trata-se de um microcosmo exclusivo aos neófitos e especialistas dedicados ao estudo e a pesquisa. Enquanto os bibliotecários consomem uma energia descomunal em cultuar o silêncio, a limpeza e a ordem, protegendo seu templo, ritos e ministros dos ordinários e profanos, o brasileiro passa adiante, apático, consumindo seu tempo livre frente à TV, escutando música, descansando e se reunindo com os amigos. Dramático, não?

Espero que esta ordem de coisas, cristalização de um modelo mental que tem se revelado canhestro, sofra fissuras. Penso que os 50 anos de regulamentação da profissão, celebrada este ano, pode nos servir como marco simbólico na adoção de estratégias destinadas a valorar a profissão, o que exigirá, primordialmente, uma sensibilidade da nossa parte em ouvir vozes, em se silenciar frente a elas, em permitir que se tornem nítidas e pujantes a ponto de incomodarem os que se encontram, instalados, confortavelmente, em seus balcões de referência e salas de leituras.

Enquanto isso não ocorre, tomarei duas medidas: presentearei minha amiga amargurada com uma calça de algodão comprada na feirinha da Torre de TV e sugerirei que divida seus livros em duas classes – virtuosos ou maléficos, velhos e novos, pudicos e lascivos, de direita e de esquerda – misturando-os e realocando-os num processo contínuo, à luz de critérios nitidamente arbitrários. Ao ressignificar as palavras, criará uma nova ordem, caçoando da tradição com sua malha de saberes. Desse modo, Maya possa se sentir protagonista de sua história, deixando de ser, meramente, uma excelente catalogadora, e se convertendo numa bibliotecária que sabe ler os sinais dos tempos.


Sobre o autor: Cristian Santos é Pós-doutorando em História pela Casa de Rui Barbosa. Doutor em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília. Mestre em Ciência da Informação, graduado em Filosofia, Tradução, Biblioteconomia e Letras (Língua e Literatura Francesas). Foi bibliotecário do Superior Tribunal de Justiça durante dez anos. Atualmente é bibliotecário da Câmara dos Deputados.

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