Relatos de Experiência

Antônio do Livro 

  por Yaciara Mendes Duarteyaciara

 "O LIVRO SEMPRE VOLTA, MAS DE OUTRAS FORMAS, ATRAVÉS DA DOAÇÃO DAS PESSOAS, POR EXEMPLO. O CONHECIMENTO TEM QUE CIRCULAR. O LIVRO TEM QUE IR DE MÃO EM MÃO"  (Foto: Yaciara Mendes Duarte)

 

Antônio da Conceição Ferreira sempre foi um menino sonhador. Maranhense, começou a estudar com 12 anos de idade. A dificuldade neste primeiro contato com as palavras despertou na sua professora o desejo de ajudá-lo. E assim, o garoto de Santa Luzia do Tide, conhecido em sua escola por sua excelente memória, seguiu estudando na mercearia do pai enquanto atendia a clientela do pequeno povoado.

 Em 2004, ele chegou em Brasília aspirando desejos maiores, principalmente continuar seus estudos. Trabalhou em vários estabelecimentos comerciais até que se tornou cobrador de ônibus. 

No trajeto diário, observava com admiração as pessoas que liam no coletivo, fazendo disso uma forma de aproximação e diálogo com seus passageiros; sentia que as pessoas que liam tinham algo diferente.

Antônio percebeu que o livro era uma maneira de melhorar o próprio vocabulário, conhecer realidades diferentes e até mesmo perder o medo e a timidez. Após ser conquistado por Jorge Amado e seus Capitães de Areia, ele resolveu fazer algo para que os seus passageiros também tivessem contato com tão prazerosas experiências literárias. Na simplicidade de uma caixa de papelão, arrebanhou os livros que tinha e começou o projeto de leitura no ônibus. Quando finalmente providenciou uma estante de plástico para armazenar os livros que poderiam ser emprestados, ouvia de passageiros incrédulos:

- É para ler? É de graça? E se eu não devolver?

Antônio, que nunca quis prender seus livros dizia:

- O livro sempre volta, mas de outras formas, através da doação das pessoas, por exemplo. O conhecimento tem que circular. O livro tem que ir de mão em mão.

Ele contou que uma passageira demorou um ano para devolver determinado livro e quando o devolveu, trouxe ainda outros. “O ônibus foi uma ponte”, reflete Antônio. De fato, uma corrente de leitura foi iniciada com o projeto Cultura no Ônibus.

Com o recebimento de tantas doações, o projeto começou a crescer. Antonio ganhou um novo nome, Antônio do Livro, e tantos livros que começaram a ocupar mais espaço do que deveriam. Sob protestos da esposa, diante da grande quantidade de livros, Antônio passou a alugar um galpão, arcando sozinho por muito tempo com toda a despesa extra, até o surgimento de doadores para contribuir com essa despesa. A proporção do trabalho foi tamanha, que a Empresa Piracicabana além de ceder um espaço na rodoviária para servir de sede ao projeto, pretende expandi-lo a todos os ônibus da firma.

Hoje, Antônio estuda Letras e entrou em um curso de inglês junto com seu filho, aliás para quem acredita está dando um ótimo exemplo: “Os professores do meu filho vão saber que eu o incentivo à leitura”. Ele também sonha em ser professor e expandir o projeto com outros tipos de atividades culturais: oferecer palestras, aulas e oficina para as pessoas carentes. Com brilho nos olhos, ele deseja que o livro não esteja apenas nos ônibus, mas no coração de todas as pessoas.


Sobre o autor: Yaciara Mendes Duarte é bibliotecária escolar e mestranda em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília.