Entrevista

Escrito por 

 

 Antonio Lisboa de Miranda

“CONCLAMAR A CLASSE BIBLIOTECÁRIA A PARTICIPAR DO MOVIMENTO ASSOCIATIVO E DAS ATIVIDADES PROFISSIONAIS QUE LEVEM À REALIZAÇÃO DE NOSSA MISSÃO PROFISSIONAL NO NÍVEL MAIS ADEQUADO POSSÍVEL. COMO PROFISSIONAIS E COMO CIDADÃOS, ATUANTES NAS TRANSFORMAÇÕES QUE O MOMENTO ATUAL EXIGE DE NÓS."  

 

Antônio Miranda é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). Foi o criador da comutação bibliográfica no Brasil. Atualmente, estuda os fenômenos da comunicação da informação com interesse nos processos criativos, estéticos e éticos da animaverbivocovisualidade no âmbito da convergência tecnológica. É escritor e membro da Associação Nacional de Escritores.   


REABDF - Quem é Antonio Miranda?

Antonio Miranda - Respondo com Mário de Andrade: "eu sou trezentos". Desdobro-me em muitas atividades profissionais e literárias, da pesquisa cientifica, passando pela administração pública, ensino universitário e produção e promoção cultural, particularmente na poesia.

REABDF - O que o levou a escolher a profissão de bibliotecário?

Antonio Miranda - Frequento os livros e as bibliotecas desde muito jovem. Migrante no Rio de Janeiro -- minha família tomou um Ita no norte e foi para o Rio morar – eu tinha à minha disposição bibliotecas públicas e depois passei a frequentar a Biblioteca Nacional, que ainda funcionava aberta ao público em geral como uma biblioteca pública. Lá eu descobri que havia um vestibular para o curso de biblioteconomia. Frequentei um semestre e fui concluir os estudos na Venezuela, em 1970, aos meus trinta anos de idade. Depois fiz o mestrado na Inglaterra, o doutorado na USP, um estágio nos Estados Unidos, um concurso para professor titular da Universidade de Brasília... até receber o título de "Emérito" já aposentado, situação honrosa, seguindo os passos anteriores de Rubens Borba de Moraes e de Edson Nery da Fonseca.

REABDF -Quando surgiu o seu interesse pela poesia e pela literatura? Como foi lidar com a censura? Você acredita que nos dias atuais ainda temos censura?

Antonio Miranda -Nasci no Maranhão, terra de poetas, mas foi no Rio de Janeiro que eu verdadeiramente descobri e reconheci minha vocação para a literatura. Nos anos 50, descobri as vanguardas da época: o Concretismo, o Neoconcretismo, depois a Tropicália... antes eu exercitava o soneto metrificado, passei pelo verso livre do Modernismo e acabei no poema visual... sem abandonar as experiências anteriores. Tenho vários heterônimos: De Nirham Eros, nos anos 50-60, um personagem mais picaresco da "cantiga de escárnio e maldizer" -- o Barão de Pindaré Jr, e até um heterônimo secreto que eu uso para testar experiências antes de assumi-las publicamente...

Eu me auto-exilei em Caracas durante os anos de chumbo da Ditadura Militar brasileira, mas acabei nas malhas da censura com meus espetáculos teatrais. Quando ganhei o prêmio Sisson & Parker com a dissertação de mestrado na Lougborough University of Tecnology em 1975, eu, em princípio, tinha direito ao "doutorado direto", mas nunca o governo brasileiro confirmou o compromisso com a universidade, e eu tive que regressar ao país sem concluir o curso. A Editora da UnB e a editora LTC - Livros técnicos decidiram coeditar o texto em formato de livro, mas censuraram alguns parágrafos mais críticos e até mudaram o título da obra. Eu não tive acesso à última revisão de texto. O título original era "Informação para o desenvolvimento: o planejamento bibliotecário no Brasil", conforme, aliás, aparece na catalogação na fonte, mas mudaram na capa. Naqueles tempos ainda não havia o apelo explícito à questão da informação, e eu pretendi atrair a atenção de um público mais amplo, interessado nas políticas públicas relacionadas com as necessidades de informação científica e tecnológica.

Sim, sempre existiu censura no Brasil. Hoje em dia, são os preconceitos, os privilégios de classe, as discriminações sociais, religiosas, culturais que exercem uma censura disfarçada pelas desigualdades e desnivelamentos educacionais a que estamos submetidos. E o autoritarismo, mesmo numa sociedade legalmente democrática, mas desigual, ainda mantém valores ultrapassados de pouco respeito à liberdade de opinião e de manifestação política plural e efetivamente igualitária. O Brasil é um país "mestiço" e o filósofo francês Michel Sèrres usou nosso exemplo na configuração de sua "filosofia mestiça". Tomara que o racismo não recrudesça por aqui e que a intolerância religiosa não se acentue mais, e que os nossos desníveis regionais não perpetue a noção de cidadãos de primeira e de segunda classe. Educação e cultura são antídotos, e nós bibliotecários temos uma responsabilidade na conquista desses ideais.

REABDF -Você comenta em algumas entrevistas que visitou mais de 30 países até residir oficialmente em Brasília. O que o levou a sair do Brasil? Como foi a sua experiência na Venezuela?

Antonio Miranda -Estive em mais de 40 países, e cheguei a residir muitos anos fora do Brasil: um ano na Argentina, 7 na Venezuela, um ano na Inglaterra, outro em Porto Rico, alguns meses nos Estados Unidos e na Colômbia. Na Argentina, graças a um prêmio de viagem outorgado pela embaixada em convênio com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1962, como vencedor de um concurso de monografia sobre arte; na Venezuela, com bolsa do governo venezuelano; depois como bolsista do British Council, bolsa de pesquisa nos Estados Unidos e até um convite para um período na Unesco, em Paris, participando da elaboração do World Summit sobre o estado da informação na virada do século. Na Venezuela, além da biblioteconomia (cheguei a dirigir uma biblioteca pública e a trabalhar na coordenação da bibliografia nacional da Biblioteca Nacional, em Caracas), eu me dediquei ao teatro, fundando o grupo Rajatabla, que ainda está em atividade. Viajamos por muitos países e ganhamos prêmios e reconhecimento da crítica especializada.

REABDF - Nestas viagens você chegou a visitar bibliotecas? Em qual ou quais países a atuação do bibliotecário lhe chamou mais a atenção?

Antonio Miranda - Visitei centenas de bibliotecas pelo mundo, inclusive as bibliotecas nacionais mais importantes do planeta: na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, em Hong Kong (quando ainda estava ligado à Inglaterra), no Japão, em Moçambique, Canadá, no México, na Argentina, etc. Foi uma experiência marcante e decisiva em minha formação profissional. No período que estive nos Estados Unidos também visitei bibliotecas universitárias em vários estados da federação, experiência devidamente registrada em relatório, que serviu para embasar minha posição como Assessor de Planejamento Bibliotecário da CAPES, nos anos 70.

REABDF - Você acredita que o Brasil está caminhando para uma conjuntura histórica e econômica similar a que o motivou a sair do país? Qual o papel que o bibliotecário tem neste cenário na sua opinião?

Antonio Miranda - Estamos numa crise no horizonte de incertezas e revezes, mas" haveremos de". Políticas e programas estão suspensos ou foram abandonados e afetam a institucionalidade das atividades de planejamento e desenvolvimento de “servições” de informação e documentação no país, diferentemente do que havíamos conquistado no século passado, e no início deste século; no concernente às bibliotecas universitárias e científicas e aos programas de incentivo à pesquisa, à leitura e à alfabetização em informação. Precisamos ativar nossa participação nos movimentos em andamento relativos às bibliotecas públicas e escolares, à modernização de bibliotecas nacionais, universitárias e científicas e ao acesso à informação no cenário das redes sociais e da inteligência coletiva, visando o avanço do ensino, da ciência, da administração pública, da cidadania... Precisamos repensar o Brasil e refundar muitas das nossas instituições republicanas e os(as) bibliotecários(as) devemos recuperar e conquistar posições mais afirmativas e participativas nos órgãos decisórios. Já estivemos em posições mais sólidas em tempos passados.

REABDF - Nesses anos de profissão, qual foi o maior desafio que você encontrou? Como você descreveria a fase da criação do COMUT e da fiscalização de bibliotecas universitárias para o MEC?

Antonio Miranda - O período de construção e institucionalização de bibliotecas universitárias nos anos 70 foi extraordinário, assim como os esforços para a transformação do IBICT, para o desenvolvimento de repositórios institucionais (de teses, controle da produção científica, portal de revistas científicas digitais, etc.) até recentemente. Superamos a era da pós-modernidade e agora precisamos garantir os postulados teóricos (que estão em desenvolvimento nas pesquisas acadêmicas e nas atividades profissionais em instituições líderes) e a capacitação tecnológica, assim como as plataformas legais e administrativas, para fazer valer a era da hipermodernidade. As bibliotecas estão em processo de adaptação aos novos patamares da "esfera semântica" e dos desafios da blogosfera, atualizando conhecimentos e construindo ou atualizando nossas instituições bibliotecárias. O COMUT foi uma experiência extraordinária que nasceu na Embrapa. Foi consolidada na esfera da CAPES e do CNPq e que agora requer adaptar-se às novas estruturas relativas às questões do controle bibliográfico, de catálogos em linha, mudando os estamentos da "disponibilidade" dos acervos físicos e digitais no espaço da acessibilidade "animaverbivocovisual", no espaço da hipertextualidade, da ubiquidade, da hiperatualização, etc. Ou seja, repensar nossos serviços e capacitar nosso pessoal para uma sociedade mais interativa, mais solidária, mais globalizada, mas consciente de nossas raízes e peculiares nacionais e regionais.

REABDF - Comente sobre o seu hobby de colecionar cartões postais, como surgiu? Continua colecionando? Quantos você possui em sua coleção atualmente?

Antonio Miranda - Deixei de colecionar postais no fim do século passado e tenho mais de 100 mil peças, muitas valiosas para o conhecimento de nossa memória social e cultural, considerando que o postal foi o meio de comunicação do fim do século passado e do início do século 20, prenúncio da internet no sentido da comunicação interpessoal...  O material já foi usado em diversos livros e em estudos específicos. Chegamos a obter aprovação de um projeto para a digitalização do acervo para integrar os serviços da Biblioteca Nacional de Brasília, mas a prisão do governador do DF impediu o repasse dos recursos. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro já digitalizou a coleção de fotografias do Imperador Pedro II, de inestimável valor para a pesquisa; a Biblioteca Brasiliana de Guita José Mindlin, na USP, está digitalizando o precioso acervo referente ao nosso processo civilizatório. Estou sonhando com a ideia de uma Biblioteca Nacional em Salvador, voltada para o inventário de nosso patrimônio bibliográfico e iconográfico da Colônia. Assim a tríade de bibliotecas nacionais nas três capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro e Brasília) fariam o inventário e promoveria o uso de nosso legado cultural ainda clamando por descoberta, reconhecimento, tratamento e divulgação.

REABDF - Alguma mensagem que você gostaria de deixar para os nossos leitores?

Antonio Miranda - Conclamar a classe bibliotecária a participar do movimento associativo e das atividades profissionais que levem à realização de nossa missão profissional no nível mais adequado possível. Como profissionais e como cidadãos, atuantes nas transformações que o momento atual exige de nós.

Carolina Fraga

Carolina Fraga, bibliotecária, graduada pela Universidade de Brasília, estudante de pós graduação do SENAC, com foco no consumidor. Atua como especialista sênior em treinamentos da EBSCO, conta também com experiência em Arquitetura de Informação, desenvolvimento de publicações científicas, atendimento de referência e processamento técnico de recursos digitais.