Entrevista

Sebastião de Souza

265183 2250672392081 5739750 n“SER BIBLIOTECÁRIO É ESTAR CONTINUAMENTE EM CONTATO COM TODO O CONHECIMENTO HUMANO, É COLABORAR PARA DIMINUIR A ANGÚSTIA DOS USUÁRIOS QUE NOS PEDEM INFORMAÇÕES NAS BIBLIOTECAS”

Muito querido pelo alunos da Universidade de Brasília, Sebastião de Souza é um exemplo de profissional atuante e apaixonado pela Biblioteconomia. Nesta entrevista, o professor conta um pouco de sua trajetória profissional. 


REABDF - Quem é Sebastião de Souza?

Sebastião - Eu sou um eterno estudante.  A maior parte da minha vida foi como professor. Lecionei nos três níveis educacionais: 1º, 2º e 3º graus.  Aos 20 anos já tinha feito três cursos superiores: Letras Neolatinas, Filosofia e Pedagogia. Comecei minha carreira como docente, alfabetizando 20 alunos da zona rural de Taquari – RS, que nunca tinham visto livros na vida. Até 1966 eu estava lecionando em dois colégios da cidade de São Paulo, quando no início do ano seguinte recebi um telegrama do Professor Abner Vicentini, então Diretor da Biblioteca Central da UnB, perguntando se eu queria trabalhar com ele em Brasília. Aceitei imediatamente o convite e em meados de fevereiro de 1967 eu já estava trabalhando na Seção de Conservação e Manutenção do Acervo da BCE. Como funcionário, comecei a fazer também, a partir de 1970, o Curso de Biblioteconomia, me formando em julho de 1972. Todas as horas que eu estudava eram repostas no sábado e domingo. No ano seguinte fui reclassificado como bibliotecário e lotado na Seção de Referência da Biblioteca.  Em 1979, o então Reitor da Universidade Federal da Paraíba, Professor Linaldo Cavalcante, me requisitou como Professor e Diretor da Biblioteca do Campus II, localizado em Campina Grande. Fiquei lá 3 anos e meio, indo depois para o Campus 1 de João Pessoa, como professor e fazendo, ao mesmo tempo, o Mestrado em Biblioteconomia. Voltei para Brasília em 1987, indo trabalhar no IBICT até 1991, quando me aposentei como técnico. Dois anos depois fazia concurso para professor do Departamento de Biblioteconomia da UnB, onde me aposentei por idade, em 2008.

REABDF - O que levou o senhor a escolher a profissão de bibliotecário e posteriormente a carreira docente na área?

Sebastião - Trabalhei fora da sala de aula apenas alguns anos, na UnB e na SUDECO. O que me levou a estudar Biblioteconomia foi o fato de estar trabalhando na BCE, uma das maiores bibliotecas universitárias do país e o fato de que quem trabalha em biblioteca é um privilegiado, pois está continuamente em contato com todo o conhecimento mundial. Por outro lado, eu sempre gostei de ensinar. Em minhas aulas sempre procurei dar o melhor de mim mesmo, procurando repassar para os alunos todos os meus conhecimentos adquiridos, pois os alunos merecem isso de todo professor.

REABDF - Enquanto trabalhava em biblioteca, o senhor já deve ter presenciado diversas histórias. Qual foi a que mais lhe marcou?

Sebastião - Trabalhei na BCE durante 12 anos, sendo 7 na Seção de Referência e nos três primeiros anos trabalhei sozinho. A BCE funcionava ainda no SG-12 e a Seção de Referência ficava bem ao lado da Circulação. Adorei trabalhar na Seção de Referência. Foi ali que acabei decorando muitos e muitos números de classificação, pois estava continuamente em contato com os livros. Os usuários da Biblioteca, especialmente os alunos, simpatizaram comigo; quando iam na Biblioteca e eu não estava, perguntavam aos funcionários da Seção de Circulação: cadê aquele magrinho de óculos que fica ali, e eles respondiam: ele está atendendo um usuário, mas já volta. Dois fatos que marcaram a minha estadia na Seção de Referência foram: Um professor, doutor em Sociologia, me pediu um dicionário de grego-português; fui com ele até as estantes  e entreguei o dicionário na mão dele. Voltei para minha mesa e fiquei observando o professor folhear o dicionário, para lá e para cá ,sem encontrar o que ele queria. Fui lá e perguntei que palavra ele queria. Era a palavra “ethos”, que em grego significa costume. Peguei o dicionário e disse ao professor: o senhor está procurando na letra “eta”, mas “ethos” começa com “épsilon”. Abri o dicionário na página certa e entreguei para ele, que me agradeceu e nada mais disse. Dias depois o Professor Vicentini recebeu uma carta do referido Professor, elogiando o alto nível dos bibliotecários. O outro fato é que um doutorando em arte, chegou para mim dizendo que estava procurando um termo muito importante para a tese dele e não o encontrava em livro algum. Eu disse então para ele  que a Enciclopédia Italiana era muito rica em termos de arte e o levei até a estante. Minutos depois ele volta com um volume da Enciclopédia aberto e me diz: estou muito satisfeito e ao mesmo tempo muito triste. Encontrei o verbete que eu queria, mas não sei nada de italiano. Pedi para ler o verbete que era pequeno e disse a ele: pegue um papel e vai escrevendo que eu vou fazer a tradução para você. Quando terminei pedi que ele lesse a tradução, para verificar se estava clara. Ele me disse que estava ótimo. Fiz a referência completa do verbete para ele que me agradeceu e perguntou: todos os bibliotecários aqui na Seção de Referência tem que saber outras línguas? Não necessariamente, lhe respondi, mas se souber, o bibliotecário terá melhores condições de ajudar usuários como você.

REABDF - O senhor tem orgulho de sua profissão?

Sebastião - Tenho o maior orgulho de dizer que sou Bibliotecário. Quando alguém me pergunta em que sou formado, respondo que sou bibliotecário. Algumas pessoas perguntam: o que essa profissão faz? Eu então respondo: ser bibliotecário é estar continuamente em contato com todo o conhecimento humano, é colaborar para diminuir a angústia dos usuários que nos pedem informações nas bibliotecas. É uma das profissões mais importantes para a sociedade.

REABDF - O senhor acha que os bibliotecários possuem o reconhecimento que merecem?

Sebastião - Aqui no Brasil, os bibliotecários ainda não possuem o reconhecimento da sociedade. A Biblioteconomia é ainda uma profissão relativamente nova. Entretanto, ela está mostrando a sua cara cada vez mais com força. É importante que se diga que não é a profissão que faz o profissional; mas, são os profissionais que fazem a profissão acontecer. São os profissionais que, com seu esforço e dedicação fazem a profissão ser reconhecida e respeitada na sociedade.

REABDF - Qual o desafio que o senhor encontrou em todos esses anos de profissão?

Sebastião - Os maiores desafios de um bibliotecário, especialmente da Seção de Referência, é não deixar nenhum usuário sem uma resposta adequada. Por isso, quanto mais culto for o bibliotecário, melhores condições ele terá de atender os usuários. Um grande desafio que enfrentei na Seção de Referência, foi quando um médico-legista solicitou uma pesquisa indagando se os macacos tinham impressão digital. Como não existiam ainda os computadores nas bibliotecas, toda a pesquisa teve que ser feita manualmente. Anotei todas as informações requeridas pelo médico-legista e fui pedir ajuda ao Diretor da Biblioteca, que destacou uma equipe para me ajudar.  Encontramos uns 30 artigos e apenas sete deles foram encontrados na BCE. Tiramos cópia deles e avisamos o médico que viesse buscar. Ele ficou muito satisfeito e agradeceu bastante o nosso esforço, pois nem ele mesmo tinha certeza se os macacos tinham impressão digital igual a nossa.

REABDF - Qual sua visão sobre a profissão de bibliotecário atualmente?

Sebastião - Acredito que, atualmente, no Brasil, a nossa profissão está em franco progresso e crescimento. Ela acompanha de perto e utiliza todas as novas tecnologias de informação que aparecem. Temos muitos bibliotecários trabalhando em postos chaves de empresas e outras entidades e muitos profissionais de destacando  em diversas áreas do conhecimento. Mais uma vez eu repito: somos nós, os bibliotecários, que fazemos a visibilidade social da nossa profissão, com o nosso esforço, com o nosso entusiasmo e com a nossa própria vida. A nossa profissão será o que nós formos.