Depoimento

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 Nossas crianças e as bibliotecas

 

"Não serei o poeta de um mundo caduco

Também não cantarei o mundo futuro

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças"

Mãos Dadas – Carlos Drummond de Andrade

 

Querido Drummond, peço licença para parafraseá-lo, com todo meu respeito e admiração. Não venho apresentar aos leitores a situação das nossas bibliotecas escolares, quase caducas e nem cantar o mundo futuro de extermínio ou salvação destas. Nem ao menos criticar a postura taciturna de alguns bibliotecários, que se calam e permanecem em seus mundos solitários rodeados de livros. Eu venho falar de esperança, que acredito ainda está viva em cada um de nós.

A biblioteca escolar sempre foi a minha paixão, pois a vejo como um espaço de autonomia dentro de um contexto que muitas vezes não proporciona a contento a construção do conhecimento a partir dos nossos talentos e habilidades pessoais. Se a escola enxerga seus alunos como iguais na apropriação do conhecimento, a biblioteca deve[ria] apresentar a diversidade e a pluralidade dos pensamentos humanos.Em referência à frase clássica de Rosseau, a saber, “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”, afirmo que a criança não nasce com uma imagem pré-definida das bibliotecas ou da leitura em si. Ela nasce limpa e aberta para experiências literárias marcantes que construam nela a concepção de necessidade e importância. Agora eu pergunto, quem a corrompe? Se essas construções das imagens que povoarão o imaginário desses pequenos constituirão seus conceitos sobre a biblioteca, algo errado acontece nesse caminho.

Nas minhas andanças por 17 escolas públicas para subsidiar a minha dissertação de Mestrado, conversei com diversos jovens sobre suas lembranças de infância acercade bibliotecas. O que mais me chamou a atenção deveu-se ao fato de que as lembranças mais fortes não diziam respeito apenas a livros, mas, sim, a pessoas. Era a tia da biblioteca, que às vezes cedia espaço para dialogar sobre o livro lido. A simples pergunta oferecendo ajuda. A biblioteca é tudo aquilo que nós já sabemos e principalmente é um lugar de diálogo e afeto. Só se marca positivamente uma criança quando ela encontra amor em seus espaços de convivência.

Lidamos com todos os problemas, os quais não farei questão de expor. Muitos bibliotecários os vivemos diariamente. Talvez culpa nossa, talvez culpa da própria história de descaso construída, não sei. Porém, ainda nutro esperanças.

Enquanto não olham/olhamos a biblioteca escolar como um espaço de efetiva participação pedagógica, façamos que com o recurso que temos e somos, que elas espelhem a ideia de que alguém ofereceu o melhor que tinha no momento para fazê-las melhor: seja um livro ou um abraço.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Que as nossas mãos se unam nesse presente que ainda não é o ideal, mas o possível. Caminhemos. Fiquem com os desenhos, com as cores e com a vida que esses pequenos grandes seres têm em si:

 

Yaciara Mendes Duarte

Yaciara Mendes Duarte é bibliotecária escolar e mestre em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília.