Terça, 14 Junho 2016 23:16

O livreiro indica: A biblioteca: uma história mundial

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Um observador atento perceberá que as edificações construídas por determinada sociedade revelam a importância atribuída a determinados temas ou setores. Quanto maior o esforço, a grandiosidade e/ou o luxo dedicados a um tipo de prédio, maiores os indícios de que esse prédio constitui símbolo especial de seu povo (ou ao menos dos valores da elite dominante) e do seu tempo. Assim, quando olhamos as pirâmides, grandes túmulos no Egito, não surpreende saber da íntima relação daquele povo com o pós-vida. Na Idade Média, os castelos e as catedrais são as grandes construções, revelando uma época em que a guerra e a fé eram elementos fundamentais na sociedade. O século XX e seus shopping centres gigantescos contam a história da ascensão da sociedade de consumo.

No que diz respeito às bibliotecas, a editora do SESC traduziu para o português o livro "A biblioteca: uma história mundial". Escrito por James W.P.Campbell e reunindo fotos tiradas por Will Pryce, o livro traz um panorama da história da construção dos locais de moradia dos livros, desde a Antiguidade até o século XXI.

Trata-se de um daqueles livros de arte, de capa dura, comumente chamados em inglês de coffee table books.  Mais do que enfeitar as mesas de centro, a obra vale um olhar atento por parte dos profissionais do livro, não apenas pela sua beleza estética, com centenas de fotos de tirar o fôlego, mas também pelo conteúdo, que mostra muito da preocupação e dos desafios encontrados ao longo dos séculos no armazenamento, conservação e, mais recentemente, da circulação dos livros.

É bom que se ressalte que Campbell é especialista em história da arquitetura, e não bibliotecário. Assim, o livro tem uma abordagem voltada para os projetos e soluções encontradas nos mais de 80 exemplos apresentados e ricamente fotografados. Além de, potencialmente, gerar alguma dificuldade terminológica para os leigos (como os "nichos absidais", "atris" ou "balaustradas baixas"). As questões sociais envolvendo o usuário são tratadas apenas tangencialmente, sendo eles parte de diversas variáveis (nem sempre, na história) levadas em conta no projeto e edificação das bibliotecas.

A história das bibliotecas é, em parte (mas apenas em parte) a história dos livros. O tipo de suporte define seu melhor formato de armazenamento – se em escaninhos, prateleiras, armários ou até pilhas com roldanas. Mas as mudanças nos projetos arquitetônicos das bibliotecas ocorrem, igualmente, em função de seu papel na sociedade. Uma biblioteca-enciclopédia – i.e., que tivesse a pretensão de acumular todos os livros do mundo, como a de Alexandria (ou a de Assurbanipal), não poderiam ter a mesma lógica de bibliotecas voltadas apenas para reis ou imperadores. Bibliotecas-ostentação das famílias italianas da Renascença, símbolos de status social, não são iguais àquelas, a partir do século XIX, em que a facilitação da interação do usuário começa a ser uma variável mais relevante.

Em todas as épocas, entretanto, algumas preocupações – como, por exemplo, o temor do fogo, o excesso de umidade, a prevenção de furtos e a luminosidade pautaram o trabalho dos projetistas. Estes, por sua vez, raramente foram bibliotecários ou com eles se coordenavam, gerando bibliotecas com diferentes graus de qualidade para profissionais e usuários.

Na questão do fogo, por exemplo, as iniciativas variaram desde a mudança dos materiais de construção e armazenamento (da madeira para a pedra, o ferro e, posteriormente, o aço), até o uso de feng shui  e a pintura de água nos telhados, como na biblioteca Tian Yi, em Ningbo, China, datada do século XVI. A luminosidade, por sua vez, sofreu revolução quando a eletricidade passou a ser utilizada em larga escala.

A boa notícia, após a leitura, é que, após uma certa crise no final do século XX, em que os profetas do apocalipse davam conta do ocaso das bibliotecas, o início do século XXI, objeto do último capítulo do livro, tem presenciado uma explosão de construções de bibliotecas, já entendidas como locais de estudo, pesquisa e formação que ultrapassam o universo dos livros. Entre os principais exemplos trazidos por Campbell estão o Centro de Informação, Comunicação e Mídia da Universidade de Brandemburgo e a biblioteca da Universidade de Ultrecht.

"A biblioteca: uma história mundial" é daquelas obras que deixam o leitor brasileiro com um sentimento ambíguo: por um lado, há o prazer de vislumbrar bibliotecas tão belas, preservadas e/ou modernas pelo mundo - um sinal de que nem tudo está perdido no que diz respeito à nossa atividade. Por outro, a quase ausência de prédios brasileiros (a Biblioteca Nacional é a única mencionada, e muito brevemente, como exemplo de neoclassicismo tardio) faz-nos ver que temos séculos de trabalho pela frente. 

 

A BIBLIOTECA: UMA HISTÓRIA MUNDIAL

Texto: James W. P. Campbell

Fotos: Will Pryce

Edições Sesc São Paulo

2015, 328p.

ISBN 978-85-7995-179-4

Aprox. R$ 125,00

Ler 4228 vezes Última modificação em Terça, 14 Junho 2016 23:22
 Daniel Guilarducci

Sobre o autor: Daniel Guillarducci é bibliotecário por formação, diplomata por profissão e escritor por vocação. Atualmente é Assessor da Divisão de Operações de Difusão Cultural do Itamaraty.