Quarta, 22 Junho 2016 18:06

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Bibliotecária na Fronteira

 

IMG 20160626 WA0000Brasiliense, neta e filha de servidores públicos, seria pouco provável almejar algo de diferente para minha vida, pois, desde a infância, minha futura “carreira bem sucedida” era projetada por todos que me cercavam. Para que esse sonho se concretizasse precisava estudar em uma das escolas mais conceituadas da capital. Por isso, a minha família não mediu esforços para morar dois anos em outra cidade a fim de garantir minha vaga no Colégio Militar de Brasília e ter base suficiente para ingressar na tão sonhada universidade, me graduando em Biblioteconomia.

Tudo bem... confesso que os fatos ocorreram como o esperado. Sou Bibliotecária! Mas atualmente resido em um destacamento de fronteira tendo em sua volta mais ou menos vinte aldeias indígenas. Da janela da sala, posso ver embarcações subindo e descendo o Rio Oiapoque, como também o território da Guiana Francesa. Acordando bem cedo pode-se ter a sorte de encontrar algum indígena voltando da pesca e comprar um peixe fresquinho. Também não é raro encontrar cobras na caminhada matinal, macacos, bichos-preguiça e araras te observando no alto das árvores. Mas calma, vou explicar como vim parar aqui!IMG 20160626 WA0003

Ter conseguido ingressar na Universidade de Brasília era algo muito gratificante para mim porque sabia o quanto minha mãe havia lutado para manter meus estudos. Estagiar em Tribunais e nos mais altos órgãos públicos de Brasília foram a melhor parte do meu curso. Era maravilhoso poder contemplar de perto como seria meu futuro como servidora pública em bibliotecas tão grandiosas da capital.

O ano em que fui aprovada para meu primeiro estágio, na Biblioteca Central – BCE/UnB, foi o mesmo ano que conheci meu então futuro esposo, na época cadete da Academia Militar das Agulhas Negras e, como tal, residente no Rio de Janeiro. Estava muito feliz por tê-lo encontrado e também por estar estagiando. Não poderia estar melhor! Aposto que nunca se viu uma estagiária com um colete de “posso ajudar” com um sorriso maior que o meu por essas razões. Conversávamos muito naquela época, inclusive sobre situações em que eu deveria abrir mão caso me casasse com ele como, por exemplo, permanecer em Brasília, uma vez que sua profissão não permitiria fixar moradia em uma mesma cidade por muito tempo.

Logo me formei, nos casamos e nos mudamos para Macapá. Me orgulhava do papel que desempenhava como esposa ao acompanhá-lo nessas missões em lugares tão diferentes de onde nasci. Mas ao acompanhar o noticiário em busca de informações sobre acontecimentos do outro lado do país, visualizava aquelas imagens do salão verde da Câmara dos Deputados com servidores e estagiários passando por trás da repórter que me faziam refletir... As imagens da televisão me traziam detalhes dos lugares em que algum dia estive e, em alguns momentos, me fez perceber que o almejado sonho de trabalhar como bibliotecária no serviço público em Brasília estava se distanciando.

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Diante do citado incentivo, aumentei então minha carga de estudos, me matriculei em cursinho preparatório para concurso e saímos distribuindo currículos onde nos era permitido. Inesperadamente nos deparamos com uma situação onde não havia informação sobre a existência da profissão de Bibliotecária. Chegamos ao ponto de nos desgastar com contratantes explicando e tentando provar que a profissão existia e era regulamentada por lei.

Por fim consegui meu cargo de Bibliotecária e empregada pública, através de contrato, o que já podíamos considerar um progresso. Atuei como supervisora chefe da Biblioteca da Secretária de Saúde, cuja maior demanda era a orientação de trabalhos acadêmicos realizados pelos alunos de medicina da Universidade Federal do Amapá. Meses após, meu esposo foi transferido para o interior do estado, fronteira com a Guiana Francesa, um lugar menos acessível ainda. Para se ter uma idéia de trajeto, cruzamos dez horas de carro na estrada, no meio da selva, passando por trinta e três pontes, isto mesmo, trinta e três! E como saber se chegou?! Existe uma placa de recepção com os dizeres: Aqui começa o Brasil! Imaginei... “foi-se o sonho de me tornar servidora pública”, uma vez que residiremos na aqui fronteira pelos próximos dois anos...

Ao chegar neste destacamento, as esposas passam pelo Estágio de Adaptação na Vida na Selva -- EAVS para aprender a identificar e capturar serpentes e outros animais peçonhentos que possam adentrar as residências. Por aqui a integridade das pontes é o elo de sobrevivência, essencial para o transporte de água, alimentos, combustível e, por esta razão, o estoque é fundamental. Ah, telefone?! Ninguém nunca ouviu, literalmente, falar, pois não funciona, não temos sinal algum de telefonia. Aqui também não tem padaria mas temos ótimos soldados padeiros que fabricam o pão e logo cedo deixam no portão de todas as casas da vila. O horário de ir trabalhar e voltar para casa é anunciado ao soar do sino da igreja. Apesar das dificuldades relatadas e peculiaridades do local, afirmo com propriedade que conhecer o verdadeiro Brasil me tornou uma pessoa mais humilde e desapegada a certos valores muitas vezes impostos a nós como modelo de vida. Amo minha Brasília e tudo de maravilhoso que ela possui, mas tenho aprendido que existe muito mais a se viver, desbravar. Atualmente resido em Clevelândia do Norte, um lugar que aprendi a amar.IMG 20160626 WA0008

E agora a tão almejada boa notícia! Algo que eu jamais imaginaria aconteceu por aqui! Há alguns meses foi lançado pela universidade Federal do Amapá um edital de concurso público cuja vaga oferecida para Bibliotecária Documentalista será há exatos 6 km de distância de minha casa, no Campus Oiapoque. Estudei por mais de um ano, me preparei e graças ao cuidado de Deus conosco, consegui minha tão sonhada aprovação! Sim! Em breve ocuparei meu cargo e poderei oferecer todo o conhecimento que adquiri na Universidade em prol do desenvolvimento do estado. Em contrapartida, ainda contarei com a tranquilidade de levar a minha estabilidade para onde formos. 

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Juliana Nunes

Juliana Nunes é graduada em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília, pós-graduada em Docência no Ensino Superior e vive o desafio de desempenhar a profissão em um dos lugares mais belos e distantes da capital do Brasil: Clevelândia do Norte, Oiapoque-AP.