Terça, 14 Junho 2016 23:23

Entrevista: Volnei Canonica

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Volnei Canonica, secretario executivo do Ministério da Cultura, fala da sua trajetória pessoal, do trabalho da DLLLB, do papel do bibliotecário na promoção da leitura e dos planos para a reabertura da Biblioteca Demonstrativa de Brasília. 

Quando entrevistamos Volnei Canonica para esta edição da Revista Eletrônica da ABDF, ele ainda respondia pela Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) do Ministério da Cultura. Após a extinção e a ressureição do MinC, Canonica foi elevado ao cargo de Secretário-Executivo. Para a área da biblioteconomia, essa reviravolta pode acabar sendo positiva: haverá um entusiasta das bibliotecas públicas no segundo posto mais alto do Ministério. Nesta entrevista, concedida em maio de 2016, Canonica fala da sua trajetória pessoal, do trabalho da DLLLB, do papel do bibliotecário na promoção da leitura e dos planos para a reabertura da Biblioteca Demonstrativa de Brasília. 

 ATUALIZAÇÃO: Volnei Canonica deixou o cargo de secretário-executivo do Ministério da Cultura em 21 de junho de 2016, alegando falta de espaço para desenvolver os projetos que considerava prioritários.

 

 

REABDF - Quem é Volnei Canonica?

Volnei - O que mais me define é "um leitor em processo". Minha trajetória na área da promoção da leitura é um daqueles descuidos bons da vida, porque a minha relação com a literatura se deu muito cedo, com meu avô, que contava histórias.  Ele ficou dez anos numa cama, e contava histórias de gente viva, de gente morta, de piratas... E desde muito pequeno ele instigou a minha imaginação. Eu tenho seis irmãs, sendo cinco mais velhas que eu, e nenhuma tinha acabado os estudos. Eu fui o único, junto com minha irmã mais nova, que conseguiu terminar os estudos. Mas meu pai, que era pedreiro, quando mais jovem, após um derrame teve um ferro-velho. E nesse ferro velho eu via muitas coisas, e via muitos livros e revistas. Eu o ajudava a empacotar esse material, e, cada vez que eu via meu pai colocar um livro dentro de um pacote, eu ficava querendo muito o livro. Ele não me deixava pegar, afinal, aquela era a renda do trabalho dele. Mas, no final da tarde, eu fugia e roubava. Alguns eu conseguia levar para o quarto, e, em outros casos, eles me pegavam quando eu tentava entrar pela porta dos fundos, e aí eu tinha de devolver os livros. E assim começou minha relação com a literatura: com meu avô, e com o que vinha do lixo. E eu não acho que isso seja pejorativo, muito pelo contrário. A literatura, na mão das pessoas, pode ser lixo ou luxo, mas ela não deveria ser nem um, nem outro: ela deveria ser é possibilidade de imaginação de argumento e de construção de mundo.

Você precisa ter uns marcos em todas as suas relações, com qualquer questão. Na quarta-série, eu tive uma professora chamada Marta, e ela levava a gente para a biblioteca da escola. A biblioteca era fechada, só abria quando a professora quisesse – e se quisesse, não era obrigatório. Os livros eram todos arrumadinhos, organizados por séries: 1ª série, 2ª série, etc. A professora fazia o máximo... ela levava a gente e dizia "podem se servir". A gente não precisava pegar somente os livros destinados a nossa série.  Então eu sempre pegava uma cadeira e ia lá alcançar os livros da 7ª série, 8ª série. Às vezes eu nem levava o livro, mas folheava, me interessava. Então isso foi bacana. Em compensação, a Biblioteca Pública era no Centro, mas eu morava em um bairro mais afastado, e minha mãe ficava botando medo, não deixava a gente ir sozinho. Então eu nunca tinha tido uma relação mais próxima com a biblioteca pública. Então quando eu fui pra universidade, e cheguei numa biblioteca onde eu precisava me virar, que tinha todas aquelas fichinhas naqueles armários cinzas... do modo como estava organizado, aquilo para mim era um pavor. Eu não encontrava nada... Eu não sabia fazer pesquisa em computador, e na fichinha era confuso. Quando eu descobri onde ficavam as estantes de literatura e de comunicação, eu nunca mais pesquisei. Eu ia direto para a estante e ficava passando o dedo na lombada de cada livro, e depois levava um bando de livros que eu não estava esperando, ou porque o nome me chamava a atenção, ou porque eu achava que a temática era interessante. Então, isso fez com que eu tivesse uma outra relação com a biblioteca. 

REABDF - Você também tem um passado no teatro, não?

Volnei - Eu fui para o teatro, quando era adolescente. Lá, eu comecei a escrever muito, a fazer adaptações de clássicos infantis para o teatro.  Em Caxias do Sul, de onde eu sou, isso não dava muita subsistência, mas foi mais forte que eu. A minha relação com o texto, com as pessoas, com a ficção era muito forte. Minha mãe achou, em princípio, que estava tudo bem, era como se eu estivesse brincando. Mas quando ela viu que isso estava se tornando muito sério, ela chegou a pedir para a minha namorada conversar comigo para que eu desistisse. Minha namorada respondeu que se fosse pedir para eu decidir entre ela e o teatro, ela ficaria sem namorado. Daí as coisas começaram a tomar vulto, eu comecei a viver de teatro. Eu tinha feito concurso público para trabalhar na prefeitura de Caxias do Sul, e passei. Fui trabalhar na Secretaria de Cultura, para coordenar toda a parte de teatro do município. Quando eu estava na Secretaria, apareceu uma especialização na área de literatura infantil e juvenil. E eu, que gostava tanto de adaptar esse tipo de obra, fui fazer essa especialização. E era engraçado, porque todo mundo era de Letras ou Pedagogia, exceto eu, que era de Relações Públicas e do teatro, e uma grande amiga, Luciana Lucena Camello, que era da História. Meu trabalho final foi sobre Alice [no País das Maravilhas], porque na adolescência era um texto que eu achava muito chato, mas num determinado momento e resolvi que ia resolver meu problema com a Alice, e montá-lo no palco. Eu tinha lido o livro na adolescência, e é difícil entender um romance nonsense. Na adolescência você está passando por um momento em que você também não está  querendo estar onde está, não quer crescer, mas também não quer ser menor... Você está vivendo o próprio caos da Alice, mas o texto deve ter entrado, de alguma forma, em conflito comigo e eu acabei não entendendo e achando muito chato.

Numa das mudanças de administração, o José Clemente Pozenato, escritor de "O Quatrilho", foi ser o Secretário de Cultura. Eu havia feito uma oficina de escrita criativa com ele, e eu fui conversar com ele, colocar meu cargo à disposição. E falei com ele: "olha, se eu puder ir para a Biblioteca Pública, para trabalhar em algum setor para ajudar..." Ele respondeu que não tinha pensado em me tirar do teatro, porque já conhecia meu trabalho, mas que agora ele queria que eu fosse participar de uma equipe que iria construir um programa de leitura, porque a leitura seria o carro-chefe da Secretaria de Cultura na gestão dele.  E assim eu comecei a entrar na área da leitura e da literatura sem muita pretensão. Criamos um grupo de contadores de histórias, cuidada do programa de leitura, da Feira do Livro de Caxias do Sul, e foi indo até que em uma Bienal do Livro, em 2006, eu encontrei um grande amigo meu, que é escritor e ilustrador, o André Neves, e eu comentei com ele que estávamos pensando em fazer uma Bienal no Sul. Ele comentou que eu deveria conhecer o Salão do Livro Infantil e Juvenil do Rio de Janeiro, da FNLIJ [N.E.: Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil]. Aí, como eu sou formado em Relações Públicas, e fazia os projetos das leis, inclusive para captação de recursos, eu fui conhecer esse Salão. Fui em 2006 e 2007, e construí o projeto para o evento no Sul. Teve quase tudo para sair, mas não saiu. Aí eu dei uma cansada, e em 2008 eu me inscrevi em um curso de especialização na PUC-RJ na área de Literatura e Pensamento Contemporâneo. Nessa época eu já estava fazendo doutorado na PUC-RS na área de literatura e cinema. Meu interesse era trabalhar as narrativas dos contos de fadas que tinham virado filmes e desenhos. Fui para o Rio de Janeiro, e logo arranjei um trabalho como assessor na FNLIJ, e aí não volto mais. Em 2010 eu recebi um convite para coordenar o programa Prazer em Ler, do Instituto C&A, que é um programa que tem ações muito fortes na área de bibliotecas comunitárias e escolares, de disseminação de conhecimentos na área da literatura e na incidência das políticas públicas. Aí comecei a viajar pelo Brasil afora, conhecendo os projetos de leitura, discutindo as políticas públicas voltadas para essa área. Até que em maio de 2015 eu recebi o convite do Ministério da Cultura para assumir a DLLLB (Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas). Foram dois meses de conversa até que eu decidisse assumir.

REABDF - E o que faz a DLLLB? 

Volnei -Ela é responsável pelas políticas públicas do Governo Federal nas área do livro, leitura, literatura e bibliotecas. Ela está dividida em três grandes coordenações-gerais: a Coordenação do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, a Coordenação de Leitura e a Coordenação de Literatura e Economia do Livro. Junto à Diretoria está também a Biblioteca Demonstrativa de Brasília Maria da Conceição Moreira Salles. Dentro do escopo que cabe à DLLLB, sua responsabilidade é a de construir políticas estruturantes e sustentáveis, que possam dar diretrizes para os estados e para os municípios, destinadas ao fomento e à promoção da leitura, aos artistas envolvidos com essa área, ou seja, para toda a cadeia do livro. Cabe também à Diretoria, no âmbito do Ministério da Cultura, implementar as ações que estejam ligadas ao Plano Nacional do Livro e Leitura, e seus quatro eixos norteadores, que são a democratização do acesso, formação, fortalecimento da economia do livro e a questão do valor simbólico dessa área. É preciso fortalecer e estruturar essas políticas. Estou a oito meses à frente dessas políticas, buscando estrutura-las, em um contexto político e econômico extremamente difícil que o País está vivendo. Mas nem por isso precisamos deixar de trabalhar. Há questões que não necessitam de recursos financeiros, e acho que é importante a gente lembrar isso. Essa estruturação, a criação de marcos legais – que estão tramitando no Congresso, como um Fundo Pró Leitura, a institucionalização do PNLL, a Lei do Preço Fixo, leis para as bibliotecas, tudo isso são questões que envolvem muito mais a insistência em abrir possibilidades de diálogo, em especial com a população. Eu só acredito em construção de políticas públicas em que a sociedade esteja participando no diálogo com o governo; só assim conseguimos concretizar políticas de Estado. Dentre as inúmeras ações que cada coordenação tem, temos tentado estabelecer questões que não sejam apenas pontuais, que possam ser construídas até 2018 e além de 2018. E é nisso que eu me pego: como construir em vez de ações para, digamos, 100 bibliotecas, ações estruturantes que beneficiem os sistemas estaduais de bibliotecas, que vão permanecer e que possam replicar em escala, nas bibliotecas de cada município.

REABDF - Muitos gestores não entendem que o investimento em leitura pode não dar retorno financeiro imediato, mas pode, no longo prazo, criar uma geração de potencial de retorno infinito. Porque até hoje os recursos para a área cultural são os primeiros a desaparecer em caso de crise?  

Volnei - É necessário entender que todas as ações que até hoje foram construídas em relação à área do livro e da leitura foram pontuais. Não se conseguiu, até hoje, criar uma grande política de Estado para a área do livro e da leitura. Foram muitos processos e tentativas interrompidos e foram muitas ações de caráter emergencial. Mesmo a universalização do ensino é muito recente no País. O número de analfabetos no Brasil ainda é grande, e de analfabetos funcionais ainda maior. A gente tem uma pesquisa que aponta que cerca de 75% da população é de analfabetos funcionais. Isso tudo dificulta o entendimento do papel de um equipamento como uma biblioteca pública. Quando a gente fala do analfabetismo funcional, ele está em todos os lugares: não é só a pessoa mais simples em sua comunidade, é também na gestão pública! Por outro lado, temos vários analfabetos funcionais engajados na promoção da leitura. 

REABDF - Sobre isso, repito uma pergunta que foi feita em nossa última edição ao bibliotecário William Okubo. Acompanhamos na imprensa e nas mídias sociais várias iniciativas de promoção da leitura, em comunidades, em presídios, em locais pequenos, em locais sem recursos que não tem bibliotecários à sua frente. Nós, bibliotecários, ficamos com um misto de felicidade, admiração e constrangimento. Você teria uma explicação de porque esse fenômeno acontece?

Volnei - Não sei se é uma explicação, mas vamos lá. Foi construído, na figura do bibliotecário - para ele próprio e para o imaginário social – que ele é um cara técnico. Ele não é visto como um promotor da leitura, e sim como um "guardião dos livros". Eu nem gosto de falar sobre isso, porque eu tento desconstruir tudo. Primeiro, todos nós somos promotores de leitura. Todos temos a responsabilidade de, além de ler, levar o outro a ler, seja em casa, na família, etc. Mas foi dito pro bibliotecário, na sua base curricular, que ele vai para a biblioteca cuidar da parte técnica, cuidar do acervo, e é essa a sua função. E é isso que a gente tem de combater. O bibliotecário que está lá cuidando daquele acervo não se sente em condições de promover a leitura, porque isso parece estar ligado à figura do "animador cultural". Vamos pegar esses três personagens: o professor, o promotor cultural e o bibliotecário. Para o promotor cultural disseram que ele não pode chegar perto das estantes, e para o bibliotecário disseram que ele não pode contar de histórias, projetos de promoção da leitura. O professor, no meio de tudo isso, olha para o contador de histórias e vê que ele usa teatro e violão para animar as histórias. Se o professor não sabe tocar violão ou que não tem gosto pelo palco, ele deixa de fazer o básico, que é ler a história!  Ele fica com a impressão de que não pode fazer promoção da leitura, e acho que isso acontece também com o bibliotecário. A gente vê bibliotecários que fazem isso, que superar a programação técnica da sua formação, mas a gente vê que quase não existem – e, se existem, são eletivas – cadeiras de literatura, como se o bibliotecário não precisasse ser leitor!  Ele precisa não apenas ser leitor, mas estar o tempo todo se desenvolvendo. Além disso, ser capaz de lidar com um equipamento cultural como uma biblioteca pública exige disciplinas que tenham a ver com a gestão desse aparelho, porque esse espaço da biblioteca é múltiplo.  A gente tem de desconstruir essa imagem de que a biblioteca é um espaço de acervo e informação apenas. Ela é um espaço de convivência, e um espaço de convivência exige literatura, exige outras linguagens, vários mecanismos, para que seja possível conviver com vários tipos de pessoas, com várias questões que afetam o ser humano. É preciso desconstruir a ideia de que a biblioteca é um espaço de silêncio. Como a biblioteca pode ser um lugar de silêncio, se é um lugar onde as pessoas estão descobrindo? Elas estão descobrindo palavras novas, sensações novas. E aí não podem dividi-las, tem de ficar com aquilo só para elas?  Eu não acho que a biblioteca seja um lugar para bagunça, mas dizer que é um lugar de silêncio... Um dos grandes fatores para a gente ser instigado a continuar com a leitura é ter com quem dividir, e a biblioteca tem de ser um espaço de compartilhamento. São questões – e precisamos lembrar que a biblioteca, a literatura, sempre foram e sempre serão espaços de poder, espaço onde as pessoas quem acesso a esse conhecimento podem articular de outras formas, enxergar outros cenários. As pessoas precisam entender que o gosto pessoal não pode estar à frente de qualquer espaço público. Meu gosto pessoal é só meu, e deve ser considerado para mim. A gente enfrenta várias barreiras em relação à promoção da leitura no Brasil: a questão da literatura de temática indígena e afrodescendente. Nas escolas, esse material está guardado, porque a pessoa que está à frente da biblioteca escolar ou da biblioteca pública , por convicções de cunho religioso, por exemplo, não dá acesso a esse tipo de literatura. Outra coisa que é importante perceber é que só a paixão pela literatura não é suficiente para transformarmos o cenário da leitura no Brasil.

Esse na verdade é um grande problema que a gente tem. Eu vivo discutindo isso com promotores da leitura, e para quem está à frente de bibliotecas escolares, comunitárias e públicas. O equipamento cultural e o projeto de leitura não pode ser "meu". No momento em que é "meu", quando eu faltar, o projeto acaba. Ele tem de ser de todos. Por exemplo, numa escola, o projeto de leitura tem de envolver desde a pessoa que cuida da merenda até a diretora da escola, tem de ser de todos. Não pode ser só uma pessoa tocando isso, porque isso fragiliza demais.

REABDF - Eu pergunto, parafraseando o livro de Felipe Lindoso [N.E: jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura], "pode o Brasil ser um país de leitores"?

Volnei - Eu acho que o Brasil já é um país de leitores. Talvez não seja o número de leitores que a gente gostaria, e eu vou dizer ainda... eu não acho que todo brasileiro tenha de ser um leitor. Eu acho que todo brasileiro tenha de ter acesso à leitura, e optar por ser ou não leitor.  Quando a pessoa não tem acesso ao livro, à biblioteca, não teve a possibilidade de usufruir disso, é porque tem alguém decidindo por ela não ser leitora. No momento em que ela chega, ela vai a uma estante, ela experimenta aquilo ela pode dizer "eu não gosto" ou "eu prefiro só ler livros informativos, não literatura"... 

REABDF - Por exemplo, aqui em Brasília, em especial, muitas bibliotecas viram apenas ponto de estudo de concurseiros. É ótimo que ela possa oferecer esse espaço, mas é muito pouco, não?

Volnei - A diferença que eu faço entre a leitura informativa, que é muitas vezes pontual, e a literatura, é que na primeira a informação é dada. A leitura de literatura é diferente... ela não está buscando passar uma informação específica, está apresentando um cenário, um contexto, um enredo ficcional (ou não), e é a pessoa que dali constrói um pensamento que vai além. Eu não acho que literatura salva – para mim essa história de "palavra da salvação" é algo que é dito na missa, e é uma frase dita sempre depois de um texto proferido, em que o sacerdote lê e dá a interpretação dele. A gente só diz amém, graças a Deus. Então precisamos pensar... se a literatura salva, ela salva para onde?  A gente acha que toda pessoa que ler literatura vai ser uma pessoa melhor. Mas melhor como? Quantas pessoas você conhece que lê muita coisa, que são grandes leitores, mas que cometem grandes atrocidades no mundo?  Então, a literatura muda. Muda no sentido de "mudar de caminho" e também muda no sentido de "calar" outras vozes. Por isso eu comento sobre a paixão. É claro que se você trabalha com uma coisa que você gosta, isso te dá mais prazer e mais vontade de fazer aquilo. É assim em todas as profissões. Agora, como diria Bartolomeu Campos de Queirós, pensar a promoção da leitura é um ato político. E quando eu digo que é um ato político, eu não estou falando que é um ato de politicagem, é um ato estruturante! Eu tenho que saber que quando eu vou criar um projeto de promoção da leitura, o que eu quero com esse projeto, com que tipo de leitor eu quero contribuir, quais as metas que eu quero atingir....

REABDF - Sem que com isso você queira conduzir o leitor para um determinado destino específico.

Volnei - Muito pelo contrário! É o leitor que vai me conduzir para a ação que eu vou fazer. Não tem como um leitor chegar numa biblioteca e dizer "não tem livro pra mim", "não tem história pra mim". Isso é uma falta de conhecimento de quem é responsável pelo acervo e de diálogo com o leitor. Você pode, por exemplo, pegar pelo viés do cinema. Você pode perguntar para o usuário: "qual foi o último filme que você assistiu e gostou?". Quando a pessoa responder, você pode saber na literatura livros e histórias que terão enredos que poderão estimular esse leitor a continuar no mundo da ficção. Cabe à gente conhecer o leitor. Cada leitor. Cada leitor está em seu processo de desenvolvimento. Por isso que quando você implementa uma ação, você precisa planejá-la de forma a oferecer a esse leitor um processo de escuta. Porque se você é um gestor e gosta, digamos, de poesia. Se você só quiser ler poesia e promover poesia, vai descobrir que nem todo leitor gosta de poesia. Ou de aventura, digamos. Nem todo leitor gosta de livro de terror. No momento que eu sei por onde você quer entrar no mundo da ficção, ou quais os caminhos que você já tem trilhado no mundo da ficção, eu posso fazer como o Borges...  oferecer encruzilhadas e caminhos para esse leitor. Uma das poucas, se não a única matéria interessante que eu vi recentemente na Veja – que virou uma revista de fofoca -, falava dos caminhos que os jovens podem fazer na leitura depois que explodiu o Harry Potter e outros livros de fantasia. Você pode pegar o best seller – e eu mesmo li muito Stephen King – e mostra que o terror, ou a ficção policial, não nasceram com aquele best seller. Você pode construir uma trajetória para que o leitor chegue em livros considerados importantes, clássicos – não que best seller seja necessariamente ruim.   Mas isso exige do promotor da leitura, ou do bibliotecário, ser um leitor. 

REABDF - O papel do bibliotecário evoluiu de gestor de acervo para gestor da informação, e hoje já se fala até em gestor de diálogos, o que, creio, vai muito ao encontro do que você está falando. Entender públicos diferentes, colocar pessoas com "ânsias" parecidas em contato umas com as outras e com a literatura que as subsidie...

Volnei - Se a gente ficar com aquele discurso de que "a biblioteca serva para guardar todo o conhecimento, esse patrimônio da humanidade, etc", a gente nunca vai entender que a biblioteca é realmente este espaço de diálogo. Ela não é só um espaço para a pessoa ler, é um espaço de convivência. Ao entender isso, a gente começa a mudar tudo. A gente começa a entender certos papéis, sair das caixinhas. Hoje eu tenho pensado muito na questão da inclusão. Por exemplo, os diferentes tipos de deficientes. As bibliotecas no Brasil ainda não têm nem rampa de acesso, e muito menos acervo voltado para esse público. As poucas que têm, são livros em braile, reservados para os deficientes visuais, o que é muito bacana. Mas fica o desafio: como a gente está falando em inclusão, e não só em acesso a conteúdo, qual a inclusão que o deficiente visual está tendo com os outros usuários, se sua seção é separada? A gente geralmente cria um departamento específico. Eu sei que é difícil, quase impossível, colocar, sei lá, Harry Potter em braile, e botar na prateleira do Harry Potter normal, porque isso ocupa um espaço enorme. Mas é preciso pensar que a biblioteca é um espaço de convivência. A criança, por exemplo, não pode ficar isolada e usar só o espaço infantil da biblioteca, porque aí você está dando acesso ao conteúdo e interação com um público que é igual a ela. O ideal é que haja convivência com todas as pessoas. E é aí que entra o planejamento, e o pensamento sobre que tipo de leitor você está desenvolvendo. Eu acredito que a gente precise criar um leitor autônomo, capaz de chega em uma biblioteca e não precisar da ajuda de ninguém. Ele deve ter autonomia total para circular pela biblioteca, e, se ele achar que precisa, ele pede ajuda. O espaço tem de ser mediador, o acervo tem de estar acessível e convidativa para que ele o usufrua, a pessoa que o atender tem de ser uma pessoa aberta ao diálogo. São essas barreiras, nítidas (como um balcão que separe os usuários dos livros).

REABDF - Falando em espaços de convivência, você fez recentemente visitas a várias bibliotecas nos Estados Unidos, nas quais você deve ter visto experiências interessantes. Tem muita gente que reclama quando se fala sobre isso, e diz "ah, é Estados Unidos... nosso público é diferente, as bibliotecas daqui não têm nada a ver com as de lá". Já eu acho que há traços nos usuários que são parecidos em qualquer lugar do mundo, e que tecnologia não é sinônimo de aparelhos eletrônicos. Você pode contar um pouco sobre essas bibliotecas?

Volnei - Eu já visitei muitas bibliotecas: na Alemanha, na Suécia, na Espanha, na Coréia, no Japão, na China... Conheço muito bem as bibliotecas de Bogotá e Medelín. O pessoal fala dos Estados Unidos, com um preconceito invertido, mas temos experiências excelentes aqui na América do Sul, não muito longe. Em relação ao que eu vi nos Estados Unidos, percebi que cada biblioteca usa metodologias e tecnologias diferentes – nesse entendimento de que tecnologia não é o mesmo que informática. Há tecnologias para atendimento, para pensar projetos, para distribuição do acervo...  Mas o que todas elas têm é o entendimento do usuário como um ser de muitas necessidades, e um ser que deve ter uma interlocução grande com tudo o que a biblioteca tiver para conhecer.  Na biblioteca de Chicago, por exemplo, vai uma pessoa que corta o cabelo das pessoas. Em Seattle, voluntários da sociedade vão ensinar e tirar dúvidas sobre a declaração do imposto de renda. Hoje, o usuário tem várias necessidades que não têm a ver só com livros, e a biblioteca é este espaço de mudança de cenário de seu bairro, de seu entorno, de sua sociedade. Ela tem de deixar a sociedade ocupar esse espaço e dizer o que ela quer. A gente acha que sabe do que o outro precisa, mas a gente não sabe. A gente tem de perguntar o que o outro precisa. A partir daí é que são construídas as ações da biblioteca. Por que as pesquisas indicam que 70% das pessoas não frequentam a biblioteca pública?  Porque elas acham que aquilo ali é um espaço que elas possam ocupar. E é um espaço público!  

REABDF - Ela também tem de se preocupar em ser um espaço agradável. Em geral é muito mais gostoso visitar uma megalivraria, ou mesmo uma livraria-café, do que uma biblioteca pública. As bibliotecas, ao menos eu acho, são ainda espaços muito assépticos.

Volnei - Você toca num assunto que para mim é muito caro. Eu chamo de barreiras visíveis e invisíveis, e ao Michèle Petit [N.E: antropóloga francesa] tem um texto muito bom sobre isso. Essas barreiras para o leitor às vezes a própria biblioteca cria. Por exemplo, para mim aqueles fichários antigos eram uma barreira. Eles eram uma barreira entre mim e a informação sobre onde o livro estava. O bibliotecário tem de pensar: "para o usuário que não está acostumado a frequentar a biblioteca, quais são as barreiras – seja o balcão que vai separar fisicamente o leitor do bibliotecário, seja a forma como o atendimento é feito, seja a forma como os livros estão dispostos nas bibliotecas. Eu vi, e muitas bibliotecas do Brasil, a seguinte situação: se a maioria das pessoas que vão à biblioteca se interessam pelos jornais, para procurar emprego, por exemplo. O que faz o bibliotecário?  Põe essa parte do jornal na porta da biblioteca, para as pessoas chegaram, consultarem rapidamente e irem embora. Que papel tem essa biblioteca?  Eu estou atendendo uma demanda, sim, mas eu estou parando ali. Não ajudo a criar novas demandas, não estou buscando diálogo para saber se, além dessa, existem outras necessidades. Se não, vai ficar eternamente essa leitura – porque eu não chamo de literatura - de auto-ajuda, que vem para satisfazer uma necessidade de momento, que pode dar a ilusão de resolver uma necessidade imediata, mas estamos falando aqui da construção de um ser humano, de um cidadão, de um leitor pleno. E para ser um leitor pleno, ele não pode só pensar nas suas necessidades imediatas. Essa questão do recurso financeiro é muito importante, e existem algumas condições estruturantes que dependem de recursos. Mas tem outras que não são. Dar muito dinheiro para uma biblioteca não significa necessariamente que ela vai fazer grandes projetos, que vão conseguir atender as necessidades  do usuário. 

REABDF - Eu fico também com essa sensação de que o problema não é só a quantidade de recursos destinados a um setor, e sim a carência de bons gestores. A impressão que fica é que o Brasil é um país com artistas espetaculares, mas com gestores de cultura que ainda estão engatinhando. Existe muita vontade mas pouca execução.

Volnei - É porque se perde o foco. Você tem uma biblioteca e decide fazer quinze ações durante o dia. Daí enche a biblioteca de ações, mas sem planejá-las. E talvez com três ações mais pensadas seria o suficiente para contribuir com o leitor naquele meio. Então, não é o número de atividades.

REABDF - Ter acervo é sempre bom, e ter acervo atualizado é melhor ainda. Para isso é preciso ter recursos. Mas existem atividades que não demandam dinheiro. 

Volnei - Eu conheci dois bibliotecários na Colômbia, que são sensacionais. A primeira é uma bibliotecária de 35 anos, que dirige a biblioteca em El Tunal [bairro de Bogotá]. Ela recebeu uma biblioteca com muitos problemas, com muitos moradores de rua, que pichavam a biblioteca. Ela iniciou uma ação de trazê-los para dentro da biblioteca. Havia um deles, que frequentava diariamente a biblioteca, que começou a ser proibido de entrar porque sujava a biblioteca, os livros. Daí ela conversou com ele e disse: "eu só te peço uma coisa; quando você entrar, vá ao banheiro e lave suas mãos. Se você fizer isso terá acesso a tudo na biblioteca".  E ele topou. Ela usou um termo ótimo quando eu conversei com ela: "se o bibliotecário não se untar de pessoas, ele está no lugar errado, não deve ser bibliotecário". Hoje já há casos de bibliotecas no mundo que têm banheiros para os moradores de rua tomarem banho antes de usarem o espaço. Assim, não só não restringem o acesso, como auxiliam na questão da higiene, da saúde dessa pessoa. Mas aí aqui a gente vê o contrário: "tira os computadores da biblioteca, porque os moradores de rua estão estragando". Isso não pode!  É o meio pelo qual eles acessam a informação! A gente precisa trabalhar, trazer a ideia de que todos fazem parte da sociedade.

REABDF - Ter acervo é sempre bom, e ter acervo atualizado é melhor ainda. Para isso é preciso ter recursos. Mas existem atividades que não demandam dinheiro. 

Volnei - Eu conheci dois bibliotecários na Colômbia, que são sensacionais. A primeira é uma bibliotecária de 35 anos, que dirige a biblioteca em El Tunal [bairro de Bogotá]. Ela recebeu uma biblioteca com muitos problemas, com muitos moradores de rua, que pichavam a biblioteca. Ela iniciou uma ação de trazê-los para dentro da biblioteca. Havia um deles, que frequentava diariamente a biblioteca, que começou a ser proibido de entrar porque sujava a biblioteca, os livros. Daí ela conversou com ele e disse: "eu só te peço uma coisa; quando você entrar, vá ao banheiro e lave suas mãos. Se você fizer isso terá acesso a tudo na biblioteca".  E ele topou. Ela usou um termo ótimo quando eu conversei com ela: "se o bibliotecário não se untar de pessoas, ele está no lugar errado, não deve ser bibliotecário". Hoje já há casos de bibliotecas no mundo que têm banheiros para os moradores de rua tomarem banho antes de usarem o espaço. Assim, não só não restringem o acesso, como auxiliam na questão da higiene, da saúde dessa pessoa. Mas aí aqui a gente vê o contrário: "tira os computadores da biblioteca, porque os moradores de rua estão estragando". Isso não pode!  É o meio pelo qual eles acessam a informação! A gente precisa trabalhar, trazer a ideia de que todos fazem parte da sociedade.

REABDF - E em relação a bibliotecas mais especializadas?  Na DLLLB vocês têm de cuidar tanto das bibliotecas públicas, mais inclusivas, quanto daquelas que acabam sendo exclusivistas pela sua especialização. Como fazer, por exemplo, com as bibliotecas universitárias?

 Volnei - As bibliotecas universitárias estão mais ligadas ao MEC. A gente tenta discutir, participar, mas elas ficam mais ligadas ao MEC. Esse projeto de lei que está correndo no Senado, que fala sobre, e que diz que toda biblioteca, de certa forma, tem de ser pública... A gente tem problemas em relação a isso, que a gente tem de pensar e discutir. A biblioteca escolar, por exemplo. Ela tem uma função pública, mas ela não pode ser aberta para todo mundo, até pela questão da segurança de uma escola. A mesma coisa com uma biblioteca especializada... ela é destinada a um público específico, e tem um trabalho e um leitor avançado na sua área. Claro que isso não significa que, se alguém precisar usar o material, e tiver condições de usá-lo, deve ter o acesso. O que não significa deixar as portas abertas para acesso contínuo. As bibliotecas públicas estaduais que cuidam dos acervos históricos, da memória de seus estados, de itens mais raros, têm de controlar o acesso. Agora, as bibliotecas públicas, mais generalistas, essas têm ter o acesso garantido a todos.

No mundo moderno em que a gente está, os bibliotecários têm um papel fundamental, e não devem se apegar ao acervo físico. Hoje, com tanta informação que a gente tem, se a gente não tiver alguém para nos ajudar a gerenciar essa informação, a gente se perde. A educação demorou, e, em alguns lugares, ainda não atinou que, antigamente, era o professor que usava um quadro negro. O professor tinha a sabedoria, o conhecimento para passar para os alunos. O aluno era visto como uma página em branco que recebia os inputs do professor.  Hoje os inputs também vêm dos alunos, porque eles estão tendo acesso a uma enorme gama de informações. Essas são algumas das questões que a gente precisa pensar. São desafios, e bons desafios.

Agora, há a necessidade de todo mundo sair da caixinha. E quando eu digo isso, não falo só do bibliotecário ou do professor, mas do próprio escritor. Ele hoje não pode se ver apenas no papel do criador, mas também de promotor da leitura. Eu não estou dizendo que o escritor tem de vestir avental e ir lá fazer contação de histórias e dramatiza-las. Ele tem um papel de formação, de buscar como a sua literatura vai chegar para seus leitores. Assim como o bibliotecário tem de preocupar com quem está mediando o acesso a informação. O Monteiro Lobato, por exemplo, construiu dos personagens geniais: a Dona Benta e a Tia Nastácia, ou seja, alguém letrado e alguém da cultura popular, que faziam a promoção da leitura e da ficção para aquelas crianças. Elas contavam suas histórias à sua maneira, seja lendo histórias, seja narrando as histórias. Nós precisamos desses dois tipos de mediadores para a construção do todo.

REABDF - E quanto à Biblioteca Demonstrativa [Maria da Conceição Moreira Salles] de Brasília?  Todos os dias nos meios bibliotecários eu ouço a pergunta "quando abre a BDB?".

Volnei - Vale lembrar o processo todo. A Biblioteca Demonstrativa ficou, por um bom tempo, fazendo suas ações sozinha, tocando sua sobrevivência como era possível. Como todo equipamento cultural, ele precisa ser monitorado, restaurado, modernizado. A Conceição tocou isso como pode, e toda a equipe que estava na BDB se esforçou muito.  Só que a BDB foi interditada, e foi montado um processo público para fazer sua reforma. Era um contrato emergencial, que tem seis meses para ser cumprido. Nesse mesmo tempo, estava em negociação a saída da DLLLB da Fundação Biblioteca Nacional para o Ministério da Cultura, e a BDB veio junto com a Diretoria. Essa transferência não ocorre de uma hora para outra. Assinou-se o contrato emergencial em agosto, e a transferência da Diretoria iniciou-se no mesmo mês. Resultado: quando a empresa efetivamente conseguiu ter acesso à BDB, tinha apenas dois meses para concluir a obra. Não conseguiu, obviamente, e a obra acabou embargada. Com todas as mudanças de Diretores desde então, nunca se conseguiu destravar isso, e ficou parado, com a biblioteca interditada. Agora, é importante salientar que o prédio ficou interditado, mas a biblioteca não ficou parada. Alguns serviços continuaram funcionando. A BDB continuou recebendo livros, continuou participando de indicações para prêmios, continuou alimentando suas bases. Quando eu cheguei, em agosto de 2015, encontrei a BDB assim. Na primeira entrevista que eu dei, me perguntaram quais eram as minhas metas, e um dos que eu disse foi "reabrir a Biblioteca Demonstrativa". E repeti isso em várias entrevistas. Só que isso exige um processo burocrático que demora.

REABDF - Eu sei que há planos interessantes para a BDB. Não é só colocar o prédio em funcionamento e abrir como era antes.

Volnei - Nesse meio tempo em que ela ficou fechada, as coisas andaram, e chegamos à conclusão de que ela precisa rever seu papel de Biblioteca Demonstrativa. Ela recebe esse nome, e para ser demonstrativa, eu acho que não é preciso um prédio enorme, com um baita projeto arquitetônico. É claro que isso é bacana, porque a biblioteca também é uma experiência estética. Então, nós começamos a nos envolver para acabar essa reforma e acabar com a interdição. Um novo contrato foi assinado, e a empresa já está lá dentro, terminando. Temos menos de 120 dias para que tudo fique pronto. Desinterditar não implica outros tipos de mudança. Existe um projeto básico, que foi o desenhado, e que a gente tem de respeitar, se não a gente não consegue acabar essa obra. Mas esse projeto está desenhado de uma forma que não leva a biblioteca a tudo o que ela pode fazer. Mas ela será aberta, e, a partir daí, estamos pensando em como transformá-la em um grande laboratório para as bibliotecas públicas do País. Não é só uma grande biblioteca para Brasília. Temos trabalhado vários projetos e procurado discutir com vários parceiros – e alguns já toparam participar. Um deles é a Fundação Melinda Gates. Queremos que ela seja uma biblioteca sem barreiras, uma biblioteca altamente inclusiva, que discuta as necessidades da sociedade e aponte soluções para o futuro das bibliotecas do Brasil, e que possa, também, mostrar ao governo federal e aos governos estaduais e municipais o que uma biblioteca exige desses governos. E não é só em questão de estrutura. É na questão do atendimento, na questão da formação.

Assim que conseguirmos desinterditar, ressalto, ela será reaberta. Minha trajetória é a de brigar para que abram bibliotecas públicas. No começo, eu não conseguia dormir sendo o Diretor da área de bibliotecas do Ministério, tendo uma biblioteca sobre minha coordenação fechada. Eu vou fazer todos os esforços para reabri-la, pelo papel que ela tem para Brasília, e pelo papel que ela pode representar para o Brasil. Dá para fazer as mudanças futuras com ela funcionando. Biblioteca nenhuma – a não ser que esteja com risco de cair na cabeça do usuário – deve ficar fechada. Há condições de pensar reformas nem que seja em alguns dias específicos da semana, ou em alguns horários específicos. Estamos pensando em mudanças de leiaute, só que só poderemos executar isso depois que acabar essa obra básica, porque precisamos primeiro cuidar de desinterditá-la. Também em mudanças buscando tecnologias inclusivas e acessíveis; pensando em um grande diálogo com a comunidade para tentar entender quais são as demandas dessa comunidade; pensando em espaços múltiplos, na retirada de todas as barreiras possíveis que possam ser retiradas de uma biblioteca (e dos seres humanos!); e pensando de que forma a biblioteca possa ser esse laboratório em que possamos experimentar tudo o que possamos pensar – ela está atrelada ao Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, então tudo o que tiver relação com o futuro das bibliotecas pode ser experimentado na BDB, e depois possa ganhar escala para o Brasil. A sensação que eu tenho, e que eu gostaria a BDB passasse, é a que todo gestor público, todo Prefeito, e também bibliotecários, por exemplo, pudessem ir lá, passar um tempo ali e sair dizendo: "tem coisas importantes aqui, que eu posso reestudar e aplicar na minha biblioteca. Eu não gosto da palavra biblioteca-modelo, porque parece que é uma imposição. Mas ela deve inspirar todas as bibliotecas do Brasil. E isso não significa ter um grande prédio, e sim entender quais são os processos necessários para que se atenda o usuário. E, é claro, a gente pensa que essa biblioteca tem de ser um espaço de formação para novos bibliotecários, e pensa em como ela pode utilizar novas tecnologias, e como ela tenha áreas, como a de quadrinhos por exemplo, que reúnam histórias do mundo inteiro, que não seja uma área só para "ler gibi de sucesso". E, fundamental, que a BDB possa abarcar toda a diversidade. Tem o que a gente considera o básico de uma biblioteca, mas ela tem de ir além. Ela precisa pensar a geração de renda para a sociedade, ela precisa pensar em si mesma como um espaço de novas formações e informações. Ontem mesmo eu dizia para os servidores da BDB. Se a gente está pensando, por exemplo, na colocação da mulher na sociedade, de que forma a biblioteca pensa isso?  Ela poderia contribuir informando essa mulher sobre economia  - não a do lar, mas a do bairro, e da sociedade?  Ela poderia informar essa mulher sobre as formas de participação na vida pública... Esse é o espaço! A biblioteca é esse espaço!  Se a gente pensar a BDB discutindo o território de Brasília, a gente já vai oferecer subsídios suficientes para que mulheres de outras bibliotecas do Brasil possam entender isso. A ideia não é fazer da BDB uma espaçonave tecnológica. Vai ter tudo de bom, mas muitas bibliotecas vão esbarrar na questão financeira e não vão conseguir isso. Eu vi, por exemplo, em Seattle, que as próprias pessoas imprimem seus trabalhos. Elas vão lá, colocam a moedinha e imprimem os trabalhos. Não tem que enviar para outros locais. Ou tecnologias que permitem que o usuário pegue um livro emprestado sem ter de falar com o atendente – até por uma questão de privacidade do usuário. Deixar que o usuário tome conta de algumas coisas. 

REABDF - Para esse novo perfil de biblioteca, será preciso um novo tipo de bibliotecário...

Volnei - Precisamos insistir que existam mais universidades com o curso de Biblioteconomia, que a grade curricular do curso seja revista, para incluir algumas questões necessárias para o pensamento do bibliotecário, para formar essa nova biblioteca. Eu tive uma conversa com todos os funcionários da Biblioteca Demonstrativa, justamente para coordenar a realização de alguns seminários para discutir esse novo papel da biblioteca, nesse período em que ainda estamos em reforma. Porque é preciso uma mudança de conceito, um desapego por parte das pessoas, para entender que é preciso estar no processo de reciclagem o tempo todo. E não é só o bibliotecário... O vigilante da biblioteca, os espaços da biblioteca. Em Seattle, na biblioteca não existem paredes!  E eu acho que é por aí mesmo... Os móveis indicam lá um caminho e uma divisão de acervo mais natural. Mas não é preciso paredes, não é preciso estar enclausurado e dizer "esse é o único lugar que eu posso ocupar nesta biblioteca...". Eu nem gosto de fazer muita diferença entre a Literatura infanto-juvenil e para adultos. A Literatura de qualidade está para todas as faixas etárias. Um livro infantil pode ser fundamental na minha vida, mais do que qualquer clássico russo. Até pouco tempo, as pessoas tinham essa coisa da biblioteca como um espaço de conhecimento para poucos, que poucos podiam usar. E isso vem do histórico de como as bibliotecas foram implantadas no Brasil. Hoje em dia, precisamos muito que todo mundo frequente a biblioteca, para que esse espaço seja entendido como social, como espaço de aprendizagem, de colaboração. É um grande balcão de formação e de informação. A formação sempre foi deixada meio de lado, tanto por parte dos bibliotecários quanto por parte dos formadores de leitura.

Por outro lado, a gente fica aqui falando das dificuldades que se tem de instituir políticas públicas e de ter um Brasil de leitores, mas a gente tem iniciativas maravilhosas, e encampadas por bibliotecários. Nós recentemente tivemos o Prêmio Viva Leitura, e bibliotecas ganharam o prêmio por fazer o simples, por fazer exposições com os materiais que tinham, de fazer essa exposição circular pelo estado todo, por olhar para os moradores de rua e trazê-los para dentro da biblioteca, por interagir com todo tipo de deficiente mental, gente que não sabia pegar em um livro. Olhar para aqueles que parecem invisíveis. É claro, o Brasil é grande e nem todos os municípios têm uma biblioteca pública. Nós precisamos responsabilizar os setores públicos estaduais e municipais no sentido de que existam essas bibliotecas. Nós estamos agora resgatando um decreto do [então] Ministro Juca, da outra gestão dele, que diz que se o município não tiver biblioteca pública aberta e funcionando, não recebe qualquer verba do Ministério da Cultura, seja pela Lei Rouanet, ou para a área de audiovisual, ou da economia da cultura, ou para Pontos de Leitura. A biblioteca é um equipamento necessário. A gente tem mais de seis mil bibliotecas no Brasil. É um número muito maior do que o de museus, do que o de salas de cinema, do que o de salas de teatro. Então é o equipamento mais presente no território brasileiro. A gente precisa é transformar esse equipamento em algo cada vez mais vivo, cada vez mais à serviço da comunidade, e não a serviço do gestor.

REABDF - E em relação a bibliotecas mais especializadas?  Na DLLLB vocês têm de cuidar tanto das bibliotecas públicas, mais inclusivas, quanto daquelas que acabam sendo exclusivistas pela sua especialização. Como fazer, por exemplo, com as bibliotecas universitárias?

Volnei - As bibliotecas universitárias estão mais ligadas ao MEC. A gente tenta discutir, participar, mas elas ficam mais ligadas ao MEC. Esse projeto de lei que está correndo no Senado, que fala sobre, e que diz que toda biblioteca, de certa forma, tem de ser pública... A gente tem problemas em relação a isso, que a gente tem de pensar e discutir. A biblioteca escolar, por exemplo. Ela tem uma função pública, mas ela não pode ser aberta para todo mundo, até pela questão da segurança de uma escola. A mesma coisa com uma biblioteca especializada... ela é destinada a um público específico, e tem um trabalho e um leitor avançado na sua área. Claro que isso não significa que, se alguém precisar usar o material, e tiver condições de usá-lo, deve ter o acesso. O que não significa deixar as portas abertas para acesso contínuo. As bibliotecas públicas estaduais que cuidam dos acervos históricos, da memória de seus estados, de itens mais raros, têm de controlar o acesso. Agora, as bibliotecas públicas, mais generalistas, essas têm ter o acesso garantido a todos.

No mundo moderno em que a gente está, os bibliotecários têm um papel fundamental, e não devem se apegar ao acervo físico. Hoje, com tanta informação que a gente tem, se a gente não tiver alguém para nos ajudar a gerenciar essa informação, a gente se perde. A educação demorou, e, em alguns lugares, ainda não atinou que, antigamente, era o professor que usava um quadro negro. O professor tinha a sabedoria, o conhecimento para passar para os alunos. O aluno era visto como uma página em branco que recebia os inputs do professor.  Hoje os inputs também vêm dos alunos, porque eles estão tendo acesso a uma enorme gama de informações. Essas são algumas das questões que a gente precisa pensar. São desafios, e bons desafios.

Agora, há a necessidade de todo mundo sair da caixinha. E quando eu digo isso, não falo só do bibliotecário ou do professor, mas do próprio escritor. Ele hoje não pode se ver apenas no papel do criador, mas também de promotor da leitura. Eu não estou dizendo que o escritor tem de vestir avental e ir lá fazer contação de histórias e dramatiza-las. Ele tem um papel de formação, de buscar como a sua literatura vai chegar para seus leitores. Assim como o bibliotecário tem de preocupar com quem está mediando o acesso a informação. O Monteiro Lobato, por exemplo, construiu dos personagens geniais: a Dona Benta e a Tia Nastácia, ou seja, alguém letrado e alguém da cultura popular, que faziam a promoção da leitura e da ficção para aquelas crianças. Elas contavam suas histórias à sua maneira, seja lendo histórias, seja narrando as histórias. Nós precisamos desses dois tipos de mediadores para a construção do todo.

REABDF - E quanto à Biblioteca Demonstrativa [Maria da Conceição Moreira Salles] de Brasília?  Todos os dias nos meios bibliotecários eu ouço a pergunta "quando abre a BDB?".

Volnei - Vale lembrar o processo todo. A Biblioteca Demonstrativa ficou, por um bom tempo, fazendo suas ações sozinha, tocando sua sobrevivência como era possível. Como todo equipamento cultural, ele precisa ser monitorado, restaurado, modernizado. A Conceição tocou isso como pode, e toda a equipe que estava na BDB se esforçou muito.  Só que a BDB foi interditada, e foi montado um processo público para fazer sua reforma. Era um contrato emergencial, que tem seis meses para ser cumprido. Nesse mesmo tempo, estava em negociação a saída da DLLLB da Fundação Biblioteca Nacional para o Ministério da Cultura, e a BDB veio junto com a Diretoria. Essa transferência não ocorre de uma hora para outra. Assinou-se o contrato emergencial em agosto, e a transferência da Diretoria iniciou-se no mesmo mês. Resultado: quando a empresa efetivamente conseguiu ter acesso à BDB, tinha apenas dois meses para concluir a obra. Não conseguiu, obviamente, e a obra acabou embargada. Com todas as mudanças de Diretores desde então, nunca se conseguiu destravar isso, e ficou parado, com a biblioteca interditada. Agora, é importante salientar que o prédio ficou interditado, mas a biblioteca não ficou parada. Alguns serviços continuaram funcionando. A BDB continuou recebendo livros, continuou participando de indicações para prêmios, continuou alimentando suas bases. Quando eu cheguei, em agosto de 2015, encontrei a BDB assim. Na primeira entrevista que eu dei, me perguntaram quais eram as minhas metas, e um dos que eu disse foi "reabrir a Biblioteca Demonstrativa". E repeti isso em várias entrevistas. Só que isso exige um processo burocrático que demora.

READF - Eu sei que há planos interessantes para a BDB. Não é só colocar o prédio em funcionamento e abrir como era antes.

Volnei - Nesse meio tempo em que ela ficou fechada, as coisas andaram, e chegamos à conclusão de que ela precisa rever seu papel de Biblioteca Demonstrativa. Ela recebe esse nome, e para ser demonstrativa, eu acho que não é preciso um prédio enorme, com um baita projeto arquitetônico. É claro que isso é bacana, porque a biblioteca também é uma experiência estética. Então, nós começamos a nos envolver para acabar essa reforma e acabar com a interdição. Um novo contrato foi assinado, e a empresa já está lá dentro, terminando. Temos menos de 120 dias para que tudo fique pronto. Desinterditar não implica outros tipos de mudança. Existe um projeto básico, que foi o desenhado, e que a gente tem de respeitar, se não a gente não consegue acabar essa obra. Mas esse projeto está desenhado de uma forma que não leva a biblioteca a tudo o que ela pode fazer. Mas ela será aberta, e, a partir daí, estamos pensando em como transformá-la em um grande laboratório para as bibliotecas públicas do País. Não é só uma grande biblioteca para Brasília. Temos trabalhado vários projetos e procurado discutir com vários parceiros – e alguns já toparam participar. Um deles é a Fundação Melinda Gates. Queremos que ela seja uma biblioteca sem barreiras, uma biblioteca altamente inclusiva, que discuta as necessidades da sociedade e aponte soluções para o futuro das bibliotecas do Brasil, e que possa, também, mostrar ao governo federal e aos governos estaduais e municipais o que uma biblioteca exige desses governos. E não é só em questão de estrutura. É na questão do atendimento, na questão da formação.

Assim que conseguirmos desinterditar, ressalto, ela será reaberta. Minha trajetória é a de brigar para que abram bibliotecas públicas. No começo, eu não conseguia dormir sendo o Diretor da área de bibliotecas do Ministério, tendo uma biblioteca sobre minha coordenação fechada. Eu vou fazer todos os esforços para reabri-la, pelo papel que ela tem para Brasília, e pelo papel que ela pode representar para o Brasil. Dá para fazer as mudanças futuras com ela funcionando. Biblioteca nenhuma – a não ser que esteja com risco de cair na cabeça do usuário – deve ficar fechada. Há condições de pensar reformas nem que seja em alguns dias específicos da semana, ou em alguns horários específicos. Estamos pensando em mudanças de leiaute, só que só poderemos executar isso depois que acabar essa obra básica, porque precisamos primeiro cuidar de desinterditá-la. Também em mudanças buscando tecnologias inclusivas e acessíveis; pensando em um grande diálogo com a comunidade para tentar entender quais são as demandas dessa comunidade; pensando em espaços múltiplos, na retirada de todas as barreiras possíveis que possam ser retiradas de uma biblioteca (e dos seres humanos!); e pensando de que forma a biblioteca possa ser esse laboratório em que possamos experimentar tudo o que possamos pensar – ela está atrelada ao Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, então tudo o que tiver relação com o futuro das bibliotecas pode ser experimentado na BDB, e depois possa ganhar escala para o Brasil. A sensação que eu tenho, e que eu gostaria a BDB passasse, é a que todo gestor público, todo Prefeito, e também bibliotecários, por exemplo, pudessem ir lá, passar um tempo ali e sair dizendo: "tem coisas importantes aqui, que eu posso reestudar e aplicar na minha biblioteca. Eu não gosto da palavra biblioteca-modelo, porque parece que é uma imposição. Mas ela deve inspirar todas as bibliotecas do Brasil. E isso não significa ter um grande prédio, e sim entender quais são os processos necessários para que se atenda o usuário. E, é claro, a gente pensa que essa biblioteca tem de ser um espaço de formação para novos bibliotecários, e pensa em como ela pode utilizar novas tecnologias, e como ela tenha áreas, como a de quadrinhos por exemplo, que reúnam histórias do mundo inteiro, que não seja uma área só para "ler gibi de sucesso". E, fundamental, que a BDB possa abarcar toda a diversidade. Tem o que a gente considera o básico de uma biblioteca, mas ela tem de ir além. Ela precisa pensar a geração de renda para a sociedade, ela precisa pensar em si mesma como um espaço de novas formações e informações. Ontem mesmo eu dizia para os servidores da BDB. Se a gente está pensando, por exemplo, na colocação da mulher na sociedade, de que forma a biblioteca pensa isso?  Ela poderia contribuir informando essa mulher sobre economia  - não a do lar, mas a do bairro, e da sociedade?  Ela poderia informar essa mulher sobre as formas de participação na vida pública... Esse é o espaço! A biblioteca é esse espaço!  Se a gente pensar a BDB discutindo o território de Brasília, a gente já vai oferecer subsídios suficientes para que mulheres de outras bibliotecas do Brasil possam entender isso. A ideia não é fazer da BDB uma espaçonave tecnológica. Vai ter tudo de bom, mas muitas bibliotecas vão esbarrar na questão financeira e não vão conseguir isso. Eu vi, por exemplo, em Seattle, que as próprias pessoas imprimem seus trabalhos. Elas vão lá, colocam a moedinha e imprimem os trabalhos. Não tem que enviar para outros locais. Ou tecnologias que permitem que o usuário pegue um livro emprestado sem ter de falar com o atendente – até por uma questão de privacidade do usuário. Deixar que o usuário tome conta de algumas coisas.

REABDF - Para esse novo perfil de biblioteca, será preciso um novo tipo de bibliotecário...

Volnei - Precisamos insistir que existam mais universidades com o curso de Biblioteconomia, que a grade curricular do curso seja revista, para incluir algumas questões necessárias para o pensamento do bibliotecário, para formar essa nova biblioteca. Eu tive uma conversa com todos os funcionários da Biblioteca Demonstrativa, justamente para coordenar a realização de alguns seminários para discutir esse novo papel da biblioteca, nesse período em que ainda estamos em reforma. Porque é preciso uma mudança de conceito, um desapego por parte das pessoas, para entender que é preciso estar no processo de reciclagem o tempo todo. E não é só o bibliotecário... O vigilante da biblioteca, os espaços da biblioteca. Em Seattle, na biblioteca não existem paredes!  E eu acho que é por aí mesmo... Os móveis indicam lá um caminho e uma divisão de acervo mais natural. Mas não é preciso paredes, não é preciso estar enclausurado e dizer "esse é o único lugar que eu posso ocupar nesta biblioteca...". Eu nem gosto de fazer muita diferença entre a Literatura infanto-juvenil e para adultos. A Literatura de qualidade está para todas as faixas etárias. Um livro infantil pode ser fundamental na minha vida, mais do que qualquer clássico russo. Até pouco tempo, as pessoas tinham essa coisa da biblioteca como um espaço de conhecimento para poucos, que poucos podiam usar. E isso vem do histórico de como as bibliotecas foram implantadas no Brasil. Hoje em dia, precisamos muito que todo mundo frequente a biblioteca, para que esse espaço seja entendido como social, como espaço de aprendizagem, de colaboração. É um grande balcão de formação e de informação. A formação sempre foi deixada meio de lado, tanto por parte dos bibliotecários quanto por parte dos formadores de leitura.

Por outro lado, a gente fica aqui falando das dificuldades que se tem de instituir políticas públicas e de ter um Brasil de leitores, mas a gente tem iniciativas maravilhosas, e encampadas por bibliotecários. Nós recentemente tivemos o Prêmio Viva Leitura, e bibliotecas ganharam o prêmio por fazer o simples, por fazer exposições com os materiais que tinham, de fazer essa exposição circular pelo estado todo, por olhar para os moradores de rua e trazê-los para dentro da biblioteca, por interagir com todo tipo de deficiente mental, gente que não sabia pegar em um livro. Olhar para aqueles que parecem invisíveis. É claro, o Brasil é grande e nem todos os municípios têm uma biblioteca pública. Nós precisamos responsabilizar os setores públicos estaduais e municipais no sentido de que existam essas bibliotecas. Nós estamos agora resgatando um decreto do [então] Ministro Juca, da outra gestão dele, que diz que se o município não tiver biblioteca pública aberta e funcionando, não recebe qualquer verba do Ministério da Cultura, seja pela Lei Rouanet, ou para a área de audiovisual, ou da economia da cultura, ou para Pontos de Leitura. A biblioteca é um equipamento necessário. A gente tem mais de seis mil bibliotecas no Brasil. É um número muito maior do que o de museus, do que o de salas de cinema, do que o de salas de teatro. Então é o equipamento mais presente no território brasileiro. A gente precisa é transformar esse equipamento em algo cada vez mais vivo, cada vez mais à serviço da comunidade, e não a serviço do gestor.

 

Entrevista elaborada por Daniel Guilarducci 

 

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