Terça, 14 Junho 2016 22:53

Coluna literária: Amar é ser bem lido

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Como quase tudo na vida, amar é complexo. E se entendêssemos as pessoas...

Como quase tudo na vida, amar é complexo. E se entendêssemos as pessoas como um misto de leitores, livros e bibliotecas? Tornaríamos tudo mais simples ou, ao contrário, adicionaríamos ainda mais complexidade à questão? Qual livro-pessoa teria espaço em nossa vida-biblioteca? E nós, ocuparíamos quais bibliotecas como livros-pessoas que também somos? Como nos leríamos?

Obviamente não seríamos livros adquiríveis. Muitos de nós passaríamos por várias bibliotecas e continuaríamos nossa trajetória Ranganathiana: como livros nós precisaríamos ser lidos e teríamos nossos próprios leitores; como bibliotecas teríamos que continuar crescendo e como leitores precisaríamos encontrar nossos livros. Sem esquecer que temos uma curta passagem por essa vida-biblioteca e, portanto, encontrar o livro certo poupará o tempo que teremos como leitores.

É importante deixar claro que nossa metamorfose como biblioteca não deve pressupor a posse de nenhum livro-pessoa; não há uma relação comercial aqui. Na condição de bibliotecas, somos apenas passagens; na de livros, apenas páginas em sucessão e na de leitores, observadores e personagens.

Bem, acho justo me oferecer como cobaia nesse caótico experimento.

Já fui muitas bibliotecas, livros e leitores diferentes! Na biblioteca infanto-juvenil que fui quando criança eu me apaixonei pela capa de alguns livros. Como não sabia lê-los, apenas apreciava de longe com a timidez característica do não alfabetizado. Sequer tinha coragem de tocar em qualquer exemplar. Como livro eu não fui muito procurado.

A adolescência chegou e me tornei uma biblioteca especializada em rock. Adorava os livros que vinham em embalagens com estampas de caveira. Diferentemente da infância, aprendi a apreciar o texto já que agora sabia ler, ainda que demonstrasse analfabetismo funcional por não entender o que lia. Passei a ser um livro lido, mas faltavam páginas. Houve uma leitora que demonstrou interesse e compreendeu a incompletude do livro, mas eu desejava passar por outras leituras.

Fase adulta e digamos que tenha me tornado uma biblioteca escolar ou universitária. Havia alguns temas diversificados e, ao mesmo tempo, certa especificidade. Tornei-me, finalmente, um leitor mais capacitado. O analfabetismo funcional ficou para trás, mas isso não significava a inexistência de leituras difíceis. Deixei tantos livros com leituras incompletas quanto, como livro, fui abandonado nas primeiras linhas. Normal. O pedagogo francês Daniel Pennac em seu livro Como um romance (editado no Rio de Janeiro em 1993 pela Rocco) fez uma lista com o que considera ser os 10 direitos do leitor e os três primeiros são: o direito de não ler; o direito de pular páginas e o direito de não terminar um livro. A propósito, aquela que havia demonstrado interesse em mim quando eu era um livro adolescente pode enfim retomar sua leitura.

Hoje sou biblioteca pública que em sua maturidade está aberta a vários temas; livro que encontrou sua leitora e leitor que encontrou seu livro. E como ser biblioteca-livro-leitor ainda é pouco, eu e ela nos tornamos escritor e escritora de uma linda “livrinha”.

Ler 3485 vezes Última modificação em Domingo, 26 Junho 2016 15:04
Alexandre Pereira da Silva

Graduado em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Atualmente é responsável pelo "Imagem UFRJ", o Banco de Imagens da Coordenadoria de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CoordCOM/UFRJ). Integrante da Liga Bibliotecária.