Coluna literária

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A Dedicatória

 

Quando um amigo dos tempos de faculdade veio me visitar fiquei na dúvida sobre onde levá-lo. Às vezes sou meio desligado, um pouco caseiro, então percebi que as únicas coisas que ainda nos uniam depois de tantos anos eram a literatura e as memórias. Na impossibilidade de recuperar o tempo, sugeri irmos até um sebo e a história começou. Ele também gostava de comprar mais livros do que poderia ler, assim como eu. Percorria os títulos com a calma da curiosidade, imerso na realidade paralela das prateleiras. Logo me dei conta que não havia grandes novidades desde minha última visita e com tempo livre resolvi me dedicar a sessões nas quais não ia com frequência. Primeiro dei uma olhada meio desanimada nos cds e vinis, coleções notadamente pobres se comparadas ao ótimo acervo de livros que Seu Beto mantinha. O livreiro pagava bem e conseguia os melhores, um acervo incomparável. O mesmo não acontecia com os discos, infelizmente. Desanimado acabei atraído para a sala infanto-juvenil em busca da coleção que tanto me fascinava em tempos de garoto. Nunca tinha parado naquela sessão e concluí que não faria mal exercitar a memória com leituras de décadas atrás. Impossível esquecer meu livro favorito daquela época: A Ilha Perdida. Ao encontrá-lo passei um bom tempo olhando para a capa tão familiar, sentindo a textura, lembrando de tardes quase perdidas em releituras insistentes. Muitas vezes que alguém ia até a biblioteca da escola procurá-lo ouvia a sentença "está com o Ciro", sempre estava. Não tive dúvidas e o levei para casa, a tarde estava ganha.

Ainda que minha vontade de começar a relê-lo naquele dia fosse grande acabei esperando até segunda, quando voltaria a ficar sozinho em casa. Cheguei do trabalho e fui direto a ele em busca de sensações perdidas. A surpresa, porém, veio antes do texto. Ao abrir a capa me deparei com uma dedicatória que não poderia me intrigar mais. "Ciro, acho que você está precisando ter este livro. E eu estou precisando de você. Talita". Lembrava-me vagamente de uma Talita. Seria ela, seria eu? Deviam ser outros, outro casal com o mesmo nome, um xará que também precisasse ter aquele livro. Não, não podia, tínhamos que ser nós. Mas como o livro nunca chegou até mim, eu que nunca troquei mais do que alguns olhares involuntários com a Talita. Espere, lembro daquela vez que ficamos juntos na secretaria esperando um sermão e ela me perguntou que livro era aquele (afinal quem lia no castigo?), depois me contou que já tinha tentado ler mas não o encontrou. Mal podia acreditar nesta coincidência que me parecia absurda. Não me lembrava bem de seu rosto, de seu jeito, mas qualquer pessoa com tamanha sensibilidade merece que seu presente chegue às mãos do destinatário. Senti uma certa tristeza, nunca imaginei ser alvo de amores platônicos. E por que não se declararia a alguém como eu? Como ela estaria agora? O que teria feito conosco o tempo? "estou precisando de você", soa-me engraçado imaginar uma garota de treze anos escrevendo isto, a ingenuidade e confusão dos primeiros sentimentos, as letras desenhadas. Tudo a respeito daquela história me deixava nostálgico e sentimental. E se ela ainda hoje fosse assim, com esse deboche meigo de quem traduz sentimentos como necessidades. Seria bom conhecê-la, ou melhor, reencontrá-la. Talvez seja tudo que precise, este livro não pode ter sido coincidência. Ei, mas ele estava em um sebo, se ela o vendeu não se importava mais com você. Sim, mas também nunca mais nos vimos, desistiu de mim por falta de oportunidade. Droga, são quase vinte anos, isso não faz sentido, era só uma paixão adolescente.

No dia seguinte joguei o nome dela na internet, porém a falta de sobrenome ou fisionomia tornava o fracasso iminente. Aquilo não parecia muito certo e a única lógica era desistir. Só não o fiz porque reler aquela dedicatória com caligrafia tão caprichada me fazia dever algo àquela garota, agora mulher. Não podia negar que também começava a ser tomado por algum tipo de sentimento que vinha a calhar. Não era sempre que se juntava no mesmo recipiente memória, expectativa, curiosidade, não pude fazer outra coisa senão esperar até sábado para falar com Seu Beto e ver se descobria quem lhe vendeu o livro. O velho não era fácil, a negativa desanimadora. “Não sei, muita gente me vende livro”. “Não tem como descobrir, e esses arquivos aí?”, “Não”. Ele provavelmente estava mentindo, mas eu não tinha como contestar a informação por enquanto. A única forma segura era vender-lhe alguns livros e conhecer seu método. Nunca me desfiz de meus livros, tentei pegar aqueles que provavelmente não releria ou teria como encontrar facilmente. Fui com três livros debaixo do braço e negociei. Ao acertarmos ele fez um cadastro com meus dados, os livros vendidos, e depois os guardou em uma gaveta. Sem os livros, porém cheio de argumentos, joguei limpo, “agor aque sei que você controla seus fornecedores preciso saber quem te vendeu um livro, é um caso importante e não te custa nada. Vamos lá, Seu Beto, sou seu cliente há anos, me quebra essa”. “Os dados dos meus clientes são sigilosos, rapaz, nada sai desse arquivo”. “Te dou mais três livros”. “Não consigo livros dessa forma, sou um comerciante sério”. “20 reais”. “Está doido?” “50 reais”. “Um pouco mais”. “Ok, 70 reais”. “Uma informação dessa não sai por menos de 100”. “Tá bom, 100 reais, aqui, na mão”. “Me fale aí o nome do livro logo, mas se contar a alguém como conseguiu você nunca mais pisa aqui”. “Obrigado, obrigado, aqui está”.

Foi vendido por um tal de César, só podia torcer para que ele não tenha comprado de outra pessoa, em outro sebo, o que tornaria impossível o rastreio. Com o telefone que seu Beto me passou arrisquei. A conversa não foi fácil, ele foi até mais educado do que eu provavelmente seria. Depois de muita insistência descobri que se tratava de um ex-namorado que ficou com o livro e o vendeu. Ele também não a via há anos, só tinha o número de telefone da casa da mãe de Talita. Agradeci esperançoso e preocupado. Provavelmente seria mais difícil convencê-la a me dar seu novo contato se Talita não morasse mais ali. Mas como tudo que prevejo acontece ao contrário a conversa foi fácil. Minha talvez futura sogra parecia uma mulher discreta e centrada, não me disse o número dela mas pediu que deixasse o meu e pediria para ela me retornar.

Esperei três dias sem sucesso. Foi um tempo de reconstrução. Montei diversos cenários em que Talita e eu nos encontramos na escola, a maioria talvez invenção, ou não. Era ela na primeira fila quando apresentei uma peça de teatro meio infantil de um autor que não me recordo, estava com uma trança no cabelo, pernas cruzadas, um ar entediado, o que mostrava seu bom senso. Também daqueles jogos escolares em que ela era atacante do time de handebol. Ao fazer um gol e comemorar com a torcida foi provavelmente para mim que lançou aquele olhar tão direto e cheio de energia. E por último, cenas tão claras, uma que ela vai até nossa sala dar um recado ao professor e tropeça, arrancando risadas de todo mundo, exceto de mim. Impressiona-me como tudo sempre esteve ali e não percebi. Eu era um jovem carente e chato, renegado por garotas, reclamando do mundo, e ela estava lá, afim de mim. De toda forma seria incrível reparar um erro assim tanto tempo depois. A expectativa me deixava cada vez mais ansioso. No quarto dia voltei a ligar, a mãe, sempre educada, me contou que tinha passado o recado e estranhava a falta de retorno, ainda se desculpou temendo que eu pensasse que tinha esquecido e me passou o número da casa dela finalmente. Eu já começava a gostar daquela senhora.

Talvez não morar mais com a mãe significasse um casamento, mas não havia muito o que fazer, não podia dar as costas ao destino assim. Arrisquei temendo ouvir uma voz masculina quando ela mesmo atendeu:

- Oi, talvez você não se lembre de mim. Meu nome é Ciro e nos conhecemos na escola. Outro dia estive em um sebo e encontrei um livro com uma dedicatória sua para mim. Acho que você nunca me entregou e queria saber se não poderíamos falar sobre isso.
- É um trote?
- Não, calma. Você não deve se lembrar, mas na época da escola você fez uma dedicatória no livro A Ilha Perdida para mim e nunca me entregou. E agora encontrei o livro. Sei que parece meio surreal, mas queria te agradecer.
- (desligou).

Nada mais natural. Apesar da frustração sabia que aquela seria a reação esperada. Já deveria ter previsto que se quisesse fazê-la se interessar por mim como vinte anos atrás precisava chamar novamente sua atenção, fazê-la relembrar aqueles tempos e reacender nela a paixão adolescente. Com seu primeiro nome e seu número de telefone recorri à velha lista telefônica para descobrir seu endereço. Não foi difícil, estava lá, nome completo, rua e número. Ligar novamente não daria em nada, então passei a escrever. Redigi a primeira carta naquele mesmo dia, relembrando minha paixão pelo livro e as cenas em que nós dois convivíamos na memória. No final do papel coloquei meu nome, telefone, endereço e e-mail para que ela tivesse todas as alternativas possíveis. Mesmo sem receber respostas continuei. Também não adiantaria apenas falar do passado senão de como era minha vida atualmente e este foi o tema das outras cartas. A memória reacenderia a chama, mas apenas o presente poderia alimentar um possível futuro. Foi então que na terceira carta ela me ligou.

- Olha Ciro, agradeço suas cartas, mas isso é uma loucura.
- Eu sei, mas veja se um acaso assim não merece uma chance?
- Chance do quê?
- Ué, de construirmos uma história tanto tempo depois.
- Você não entendeu. Ainda está com o livro.
- Claro, como não estaria?
- Tudo bem, você me devolve o livro e a gente fala sobre isso.
- Sério? Onde você quiser. Claro, perfeito, marcado.

Até que chegou o dia. Estava um pouco receoso de já ter gasto meu repertório nas cartas, nunca fui um grande improvisador. De outro lado sabia que o passado é uma colcha de retalhos infinita, qualquer fio solto pode dar um novelo ou mais. Afinal tínhamos anos de assunto. A época de escola é sempre tão odiada enquanto vivemos e depois se torna a mais inesquecível. Como se apenas tempos depois reconhecêssemos o quanto tudo ali era uma faceta mal desenhada do que viríamos a ser, com todos os exageros e desmedidas. Ela era bonita, bem melhor do que a imagem que criei - e que já era uma versão otimista da memória. Ao me acalmar fui reparando que era uma mulher simples, como eu, camiseta lisa e calça. Seu tom ameno me ajudou a ficar à vontade e, relaxado, devo ter ajudado ela também a se soltar com minhas piadas sem graça que acabam por fazer rir. Talvez eu tenha me apaixonado por ela naquela praça movimentada às seis da tarde. Talvez já estivesse apaixonado desde que li a dedicatória. O próximo passo seria o jantar para o qual a convidei. Nada muito chique, um restaurante italiano bonitinho, estava certo que o ambiente iria contagiá-la. Mas a negativa veio junto com a explicação:

- E o livro, você trouxe?
- Sim, está aqui - entregando com carinho e tentando tocar em sua mão.
- Obrigado, Ciro. Também virei fã desse livro, posso ficar com ele?
- Ué, mas eu pensei que...
- Sabe, o que aconteceu foi que eu não tinha a menor paciência pra literatura naquela época e a professora passou um trabalho sobre esse livro. Um dia nos encontramos e você parecia saber tanto sobre ele que pensei em propor uma troca: te daria o livro e você escreveria a resenha pra mim. Depois comecei a ler e acabei gostando, por isso nunca te entreguei. Também me deu um pouco de remorso te pedir isso, não era justo com nenhum de nós. Aliás, como achou o livro? Nunca descobri como o perdi.
- Foi meio por acaso.

E assim terminou nossa história, vinte anos depois. Voltei pra casa pensando que a vida é de uma falta de sentido grotesca.

 

Fábio Farias

Sobre o autor:Fábio Farias, nascido em Frutal-MG, graduado pela Universidade de São Paulo, bibliotecário na Universidade Federal de Sergipe. Escreve em seu blog: http://lovelessknife.blogspot.com.br/