Coluna Literária

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SINESTESIA LITERÁRIA

 

O lugar estava silencioso. Apenas quem olhava e ouvia muito atentamente conseguia perceber seus detalhes infinitos.

Na parede pendia um quadro em que um belo jovem de olhos azuis sorria orgulhosamente, sem saber que aos poucos envelheceria. Na mesa de centro dormia um livro no qual a capa estampava duas serpentes que engoliam uma a outra, uma branca e uma negra, representando o começo de uma história sem fim. Deitado na cadeira de balanço estava um chapéu seletor, junto a uma varinha mágica, que vivera os mais belos e incríveis perigos. 

Em cima da lareira, havia um dos muitos anéis forjados na Montanha da Perdição e, ao seu lado, um relógio de bolso dourado marcava meia-noite e meia. Provavelmente o coelho estaria atrasado àquela hora.

Da janela dava para ver a luz dos cometas em que um pequeno príncipe pegava carona. Em seu parapeito, estava disposta a miniatura de um moinho, que rodava de lá para cá e de cá para lá. Moinho este que já havia metido medo em um cavaleiro errante e em seu fiel companheiro.

Deitada aos meus pés estava uma caixa de brinquedos que, entre muitos, continha uma boneca de pano, com cabelos coloridos, que posteriormente criaria vida e falaria pelos cotovelos.

Um guarda-roupa enorme erguia-se atrás de mim e escondia as mais belas aventuras em um reino não muito distante, liderado por um belo leão de pelos dourados.

Os livros formavam algo como um cobertor a minha volta, me envolvendo carinhosamente, fazendo-me sentir rodeada por palavras, assim como uma vez a pequena ladra de livros se sentiu. Uma caneta Bic dançava em minhas mãos, enquanto eu desejava que ela se tornasse a espada de meu herói preferido.  Quando voltei o olhar para minha mão, quis poder ver a marca que me designaria como cavaleiro de dragão, mas esta não estava lá.

E entre aquela bagunça de livros estava perdido em algum lugar um chapéu de mosqueteiro, que um dia pertencera a um pequeno espadachim. E talvez, perto deste, estivesse o veneno que pôs fim a vida de dois jovens apaixonados.

Na parede a minha frente, uma foto de três irmãos com aspecto triste era avistada por um grande olho que sabia de tudo; o mistério que o envolvia, seria um bom caso para o especulativo detetive que sempre andava com seu cachimbo na boca.

Olhei para a lareira que ardia e iluminava tudo ao meu redor. Podia sentir cada livro e cada palavra. Enquanto estava ali, sentada entre as histórias mais incríveis, acompanhando cada aventura, cada paixão e cada sofrimento, eu era eles. Era Frodo e era Harry, mas às vezes me sentia poderosa o suficiente para fazer papel de Rainha Vermelha. Podia ser uma Capuleto ou, quem sabe, um semideus.

Não há limites, mas na hora de fechar os livros e apagar a lareira, toda a mágica volta a ser mera impressão em papel branco, pelo menos para nós, e, apesar do livro fechado, tudo continua real para eles. Histórias que nunca acabam, rosas falantes e amores impossíveis... O que me faz pensar se nós, do mundo real, somos apenas livros esperando para serem abertos. Ou fechados.

Mel Medeiros

Sobre o autor: Mel Medeiros cursou o primeiro semestre de Biblioteconomia em 2015, mas passou no vestibular para Letras na metade do ano, também na Universidade de Brasília. Dividida entre as duas carreiras, Mel optou pela  paixão literária. Aos 18 anos, já escreveu alguns livros de ficção que pretende publicar em breve.