Coluna Literária

Aberta ao Público

fabio1  por Fábio Farias


Estou na rua há cerca de sete anos, só no centro são uns cinco. Já estive em lugares piores, aqui as marquises são largas e é bem quieto à noite, a gente pode se esconder da chuva e dormir umas quatro horas seguidas. Durante o dia o movimento nos esconde, todo mundo só olha pra frente, ficamos de lado e tranquilos. Acho que por isso estão chegando tantos, o que tem seu lado bom, nos protegemos, dividimos umas coisas, contamos histórias. O ruim é que se formos demais logo nos espalham, como poeira. Os garotos não são tantos pela noite, mas de manhã eles chegam em bando. Pra molecada tudo é pouco, o mundo é pequeno, e é por isso que essa é a melhor fase da vida. Depois pouco somos nós e o mundo é demais pra gente. Alguns dos meninos roubam mesmo, não gosto, mas fazer o quê? Precisam de mais coisas que nós, pelo menos acham que precisam. Eu já sei me virar, depois de tanto tempo se não soubesse não estaria mais aqui, era cadeia ou cemitério. De ler nunca gostei, nem gostava que viessem com esse papo pro meu lado, é assim que sou, não me arrependo porque provavelmente me arrependeria mais se passasse a vida fazendo algo que não gosto. E não é porque deu tudo errado, não é porque do mundo só me restou o bagaço seco da laranja que vou me culpar. Não vou deixar a corrosão me destruir por dentro como por fora. Então, voltando ao que eu te dizia, nesse dia foi assim, eram umas nove da manhã quando um dos meninos pegou uma carteira ali na esquina de cima, depois daquele prédio. Coitado, acho que deve ter sido uma das primeiras dele porque nem viu que os "homens" estavam por perto, assim que o velho gritou vieram uns três. Pelo menos o garoto era bom das pernas. Ele veio correndo e olhando para mim, como se perguntasse "o que eu faço agora?", e eu não falei nada. Não porque não quisesse ajudar, é que naquela hora não tinha o que fazer, um trânsito imenso, as lojas todas abertas, o único jeito era correr mais e sumir até tudo se acalmar. O velho devia ser importante pra juntar tanta polícia em tão pouco tempo, vacilo de iniciante. Talvez fosse apenas rico, estava de terno. Fiquei preocupado, não gosto que os meninos sejam pegos, mas não tinha o que fazer, depois ele deu a volta e veio do sentido oposto, daí ele parou quase sem ar ao meu lado, jogou a carteira no meio das minhas coisas e tornou a correr, mas sabíamos que a rua estava cercada dos dois lados, então ele teve a esperteza, ou sorte, não sei bem.

Quando o garoto entrou voando na biblioteca eu dei um tempo e depois fui atrás. Conheço bem o lugar, sendo um velho frequentador dos banheiros e das cadeiras macias de lá imaginei que ele deveria estar meio perdido. Apesar da agitação na rua o clima lá dentro era tranquilo. Dava pra ouvir um pouco do que acontecia fora, ver a movimentação por umas janelas. Não foi difícil achar ele encostado numa estante, assustado, sem saber o que fazer. Já ia chegando perto quando a moça que toma conta também apareceu. Sentei e fiquei olhando de longe, tentando entender o que falavam. Sabia que minha aproximação podia gerar alguma desconfiança, porque um de nós ali era normal, dois já virava bagunça. Fiquei olhando o menino, tímido, mansinho, falando qualquer coisa, esfregando os olhos com as mãos, enquanto a moça foi pegar um livro, perguntando se era aquele. Ele acenou a cabeça dizendo que sim. Nunca vi um moleque tão dissimulado na vida, até eu estava achando que ele queria mesmo ler aquilo. Depois sentou e começou a olhar o livro, devagarzinho, folha a folha. A moça veio com outro, ele agradeceu, ela saiu. Aproveitei pra dar uma volta, ainda estavam nas redondezas. Peguei um jornal, fingindo ler também e sentei junto. "Como tá lá fora?". "Tá ruim ainda, fica aí". "Valeu". Aproveitei e fui ao banheiro, quando voltei a moça estava com ele novamente, riam de alguma coisa. "O que esse moleque tá aprontando?", pensei. Mas se estavam rindo não deveria ser nada ruim, a única coisa que a vida não pode tirar da gente é o direito de rir da própria desgraça, não depende de estado de espírito, de estar bem, de ter grana, de morar em qualquer lugar. Daí fiquei pensando que de tanta coisa que nos ferra nessa cidade, de tanta invenção pra nos exterminar, algumas ainda se salvaram. Já falei das marquises e tem também os viadutos, os cachorros que dormem com a gente, as caçambas abertas onde sempre se acha algo de útil, e as bibliotecas. Tente entrar em qualquer outro lugar com essa roupa e sem tomar banho há dias, para ver. Aqui é assim: chegou, entrou, e tem banheiro, cadeira, jornal. Claro que nem todos conseguem disfarçar o susto quando nos vêem, mas eu acho é pouco quando isso acontece. A pessoa está lá chocada e não pode fazer nada, o lugar também é meu. Não existem catracas, grades, nada. O vigilante só pega quem sai de lá com algo escondido, o que até me parece justo, e olha que pouquíssimas punições me parecem justas. É isso, um oásis até pra quem não gosta de ler, serviço cinco estrelas no centro da cidade. Talvez o segredo seja justamente o fato de estar quase sempre vazia. Pessoas como nós repelem e são repelidas. Vivemos uma relação de perseguição e fuga contra os tais cidadãos de bem, porque não somos sequer cidadãos. Somos marginais e marginalizados, somos o caos. Somos o que enfeia a cidade, o que faz os adultos segurarem firme a mão dos filhos. Aqui não, somos iguais, tem as tais caras de nojo, mas e daí? Podemos sentar, ler, lavar a cara, cochilar. Foi o que fiz.

Quando acordei, meia hora depois, o menino continuava no mesmo lugar, sozinho, folheando o livro. "Deve estar apavorado", pensei, “pra estar com o livro até agora”. Fui novamente dar uma volta e agora a situação parecia boa. Voltei, fiz um sinal pra ele e fui saindo. O garoto se levantou pra vir atrás, mas a moça entrou em seu caminho. "Será que ela sabe de alguma coisa e só estava esperando ele sair pra entregá-lo?". Não queria me ferrar junto e fui embora, já tinha ajudado muito, agora era com ele.

Estava lá comendo um pão que um camarada me arrumou quando ele apareceu. Pediu a carteira que jogou nos meus trapos, fez uma cara feia pensando que eu tinha comprado a comida com o dinheiro dele. “Relaxa guri, tá achando que eu sou ladrão? taí sua carteira”. Perguntei o que a moça queria com ele e não era nada de mau. Ela só perguntou se ele não queria levar o livro pra ler em casa. "Legal. E cadê o livro?". "Sei lá, joguei fora". "Porra moleque, tu é burro pacas, hein?". "Por que? não gosto de ler. Tava lá pra me esconder". "Eu sei, mas pense só, se você não devolver o livro não vai poder mais ir lá, ou vai ter que dar um monte de explicação e vão parar de confiar em você. Onde é que você vai arrumar um esconderijo melhor?". "É mesmo, e agora?". "Quanto tem aí nessa carteira?". "120". "Bom, procure o livro, se não achar, vai lá naquela loja e compra outro, não deve ser mais que vinte contos. Sei que parece esquisito, mas é melhor você garantir seu esconderijo, você só tem a ganhar naquele lugar". "É mesmo. Engraçado velho, eu nunca tinha ouvido falar nesse lugar, só via o prédio e pensava que nem podia entrar. Até que serve pra alguma coisa, né?".

Isso foi há mais ou menos seis meses, então estava lá outro dia e reparei uma reportagem colada na parede, Menino de rua é frequentador assíduo de biblioteca no centro. O esquisito é que sei de tudo que acontece na área e não o vi roubando mais que duas vezes, vai ver está apaixonado pela moça que trabalha lá. Se não for isso não sei.


Sobre o autor: Fábio Farias, nascido em Frutal-MG, graduado pela Universidade de São Paulo, bibliotecário na Universidade Federal de Sergipe. Escreve em seu blog: http://lovelessknife.blogspot.com.br/

Mais nesta edição: « Especial O Livreiro »