Sábado, 12 Março 2016 13:25

Opinião

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Direito à leitura e movimentos sociais: o que o bibliotecário tem a ver com isso?

 

Falar da minha experiência enquanto bibliotecária que vem atuando com o universo das políticas públicas voltadas ao livro, à leitura, à literatura e as bibliotecas é sempre um grande desafio.

Quando lemos a redação do art. 215 da Constituição Federal assegurando que “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”, passamos a compreender a leitura como prática social e cultural, um exercício de poder que constitui os seres sociais, conforme defende Constantino Bértolo.

No mundo contemporâneo é imenso o desafio de se considerar a leitura enquanto política social, cultural e educacional abrangente e inclusiva, afinal, como afirma José Castilho, Secretário Executivo do PNLL, é possível que haja desenvolvimento humano sustentável sem a formação de leitores plenos no mundo contemporâneo?

Nesse sentido, o livro, a leitura e a literatura podem ser dimensionados e compreendidos nas três dimensões das políticas culturais recentemente implantadas no Brasil, ou seja, a política cultural como economia, como direito à cidadania e como valor simbólico, onde o acesso democrático à leitura é visto como um direito primário e primordial para a conquista de outros; portanto, é objeto desafiador, não só do momento atual, mas, de uma luta antiga travada por diversos desbravadores que, assim como nós, lutaram para diminuir o abismo que dividia a população brasileira entre alfabetizados e não alfabetizados, sem acesso a livros e bibliotecas, por um país de leitores plenos.

Entender que o direito à leitura é um direito humano é, portanto, a diretriz que vem norteando a minha prática profissional desde meados de 2010 quando me vi recém-formada no bacharelado em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Pernambuco e prestes a assumir a gerência de uma biblioteca municipal, localizada na região metropolitana do Recife.

Aos 22 anos, estava à frente de um equipamento cultural com mais de 50 anos de história e que enfrentava enormes problemas que envolviam aspectos de ordem estrutural, técnico, humano, financeiro e gerencial. Foi uma experiência ímpar, única, enriquecedora e extremamente desafiadora para a minha formação profissional. Foi durante três anos que experimentei “ as dores e as delícias” de atuar em uma biblioteca pública, de exercer meu papel social enquanto bibliotecária voltada à promoção de uma sociedade leitora, buscando criar, implementar e fazer a gestão de ações que garantam o direito de acesso à leitura e aos espaços de sua fruição, produção de informação e conhecimentos na perspectiva de seu desenvolvimento das pessoas e de suas comunidades.

A cada dificuldade enfrentada na biblioteca pública, diversas inquietações me surgiam: o que fazer para mudar a situação de uma biblioteca que não possuía orçamento próprio? Como lidar com a falta de recursos humanos com formação qualificada, especializada e que dialogasse com as necessidades, desejos da comunidade existente em seu entorno? Quais os caminhos possíveis para diminuir ou solucionar essas fragilidades?
Foi aí que em 2011, tive a grata oportunidade de conhecer o Fórum Pernambucano em Defesa das Bibliotecas, Livro, Leitura e Literatura, movimento social, suprapartidário, de articulação interinstitucional (composto por integrantes de diversas organizações, tanto dos poderes públicos governamentais como da sociedade civil), e intersetorial (incluindo membros das três cadeias do setor do livro), que surgiu em 2006 por uma iniciativa da então Gerente de Geral das Bibliotecas Municipais do Recife, a bibliotecária Suzana Timóteo.

Tendo como objetivo original e atual contribuir propositiva e ativamente para a democratização do acesso à leitura e às bibliotecas, tem atuado por meio de ações que visam influir nas políticas de leitura existentes, na construção de políticas públicas sustentáveis e de Estado para o setor LLLB e na mobilização da sociedade para exerça o controle social.

Em sua trajetória, contribuiu com a construção das leis do livro de Recife (2009), Olinda e Caruaru (2010), realizou três encontros estaduais de bibliotecas públicas, escolares e comunitárias (2012, 2013, 2015), e, em parceria com a Coordenadoria de Literatura, realizou, ao longo de 2013, um mapeamento acerca da situação das bibliotecas públicas pernambucanas, iniciando o processo de interiorização de um importante debate sobre a importância das políticas públicas para o desenvolvimento do estado de Pernambuco.

Foram as vivências e aprendizados dentro do Fórum que as questões que me inquietavam anteriormente começaram a ser vistas sob a ótica das políticas públicas e do quanto elas são necessárias para melhorarmos os baixos índices de leitura, de acesso e de bibliotecas públicas qualificadas em nosso país.

Entendo que a leitura por si só não é a solução para todos os males, mas certamente ela é um instrumento fundamental para diminuir a ignorância cognitiva, possibilitar atitudes libertadoras, além de ser a chave de todos os direitos humanos.

Como bem afirma José Castilho,

um leitor pleno, que lê a linha e a entrelinha, que dá sentido e significado aos caracteres, não tem o direito de dizer que não faz escolhas, que não sabe o que quer. E aí está a base e a condição de exercício da cidadania, de determinarmos conscientemente o que é e o que pode ser no nosso território cultural e social.

No âmbito das bibliotecas, não adianta pensarmos em prédios suntuosos, com modernos layouts e mobiliários, acervo automatizado e computadores com acesso à internet, se não pensarmos, primeiramente, em construir coletivamente com a comunidade o tipo de biblioteca que esta deseja, se não pensarmos em uma política permanente que contemple o seu desenvolvimento contínuo e qualificado, capaz de impactar a vida das pessoas.

Para José Castilho, “mais do que uma questão cultural ou educacional, formar leitores plenos e altamente capacitados, além de um direito da cidadania, deve ser parte constitutiva da necessária estratégia de construção de países que se pretendem autônomos, inovadores, parceiros e não subalternos no século XXI”.

Essa não é uma tarefa fácil, mas, desde 2012, tenho atuado junto ao Fórum no processo de construção do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas em Pernambuco – PELLLB, com forte articulação com as Secretarias Estaduais de Cultura e de Educação, e entendo que esse processo necessita, antes de qualquer coisa, que modifiquemos profundamente a nossa visão e estratégia sobre a importância vital da leitura para a educação, para a cultura e para todos os setores da vida no século XXI.

As primeiras escutas já foram realizadas e, em breve, realizaremos uma audiência pública que oficializará a instalação do grupo executivo de trabalho que realizará diversas escutas públicas em todas as regiões do estado que subsidiarão a elaboração do PELLLB.
Encerro minhas reflexões reiterando as palavras de José Castilho,

tão árdua quanto necessária, a tarefa de formar leitores deve envolver o Estado e a Sociedade, e ter a educação e a cultura na condução dos esforços que são interdisciplinares e envolverão gerações, planejamentos, objetivos de longo prazo e mudança no pensar e no sentir.

Sendo assim, lutar pela garantia plena dos cidadãos às habilidades necessárias de leitura e escrita a fim de que todos sejam inseridos, enquanto nação, no mundo contemporâneo é antes de tudo um direito individual e coletivo, um grito pela liberdade e pela emancipação social e econômica.

Ler 4252 vezes Última modificação em Domingo, 26 Junho 2016 14:40
Gilvanedja Mendes

Gilvanedja Mendes é bibliotecária da Secretaria Estadual de Cultura e Educação de Pernambuco. Defende a necessidade de engajamento político da classe bibliotecária.