Sábado, 12 Março 2016 01:50

Opinião

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O papel da bibliotecária enquanto incentivadora do empoderamento feminino desde a infância

Meu nome é Larah Pimenta, bibliotecária pela Universidade Federal do Ceará. As vésperas do dia 8 março, Dia Internacional da Mulher, fui convidada pelo bibliotecário Raphael Cavalcante para escrever um texto sobre feminismo e biblioteconomia. Um desafio. Pensei: como uni-los?

Além do próprio feminismo não ser muito abordado na nossa área, a própria biblioteconomia vê tempos difíceis no Brasil. Estamos cada vez mais separados, com menos vagas no mercado e, porque não dizer, iludidos com o nosso papel profissional. Nosso curso não é lá muito conhecido como um curso que debate causas políticas com frequência, embora devesse. Afinal, somos ou não “incentivadores de opiniões”? Estamos no mundo apenas para dar o que o usuário quer, ou será que também podemos sugerir? Ao olhar meus livros, pensando em como juntar biblioteconomia e feminismo, pensei: o que eu lia quando criança? Alguém me incentivou ainda criança a ler algo que me empoderasse enquanto menina/mulher?

E se eu, enquanto bibliotecária, ao invés de oferecer o conto clássico da Cinderela, a gata borralheira que vai ao baile onde um príncipe deve escolher ao bel-prazer quem será sua futura esposa, para meninas lerem, entregasse um livro protagonizado por uma heroína que não precisasse ser salva, mas que salvasse alguém? Ou ainda uma mocinha cega, negra ou gordinha, uma heroína que representasse a verdadeira pluralidade das nossas minileitoras? Não estou falando em obrigar crianças a lerem apenas o que tutelamos, mas ressalto a necessidade de apresentarmos uma leitura diferente daquelas nas quais sempre as moças brancas, esbeltas e de olhos azuis precisam ser salvas da bruxa má por um príncipe encantado em direção ao “felizes para sempre”.

Sejamos honestos, que bem faz passar a ideia para uma menina de que o mundo é cor-de-rosa e que ela será sempre a mocinha que precisa ser salva? Precisamos rever nossos livros infantis. Quantos são escritos por mulheres? Quantos são protagonizados por mulheres? Quantos falam sobre racismo, homofobia, preconceitos diversos? Eu nunca daria livros do Monteiro Lobato para alguma criança ler. Sugiro que antes de me criticar, esqueça o Sítio do Pica-pau Amarelo feito pela Globo e se concentre em uma das histórias de Lobato, ao qual muitos defendem, mas poucos leram. O racismo e o sexismo são evidentes na narrativa. E não me venham falar da época na qual o autor escreveu suas histórias, vamos parar de usar essa desculpa para continuar reproduzindo o racismo. Podemos, em seu lugar, indicar um dos cem livros infantis com meninas negras blog “A mãe preta que visa trazer visibilidade para as meninas negras na literatura infantil”; no lugar da Branca de Neve, que é beijada por um príncipe sem dar sua permissão, para ser salva e depois desposá-lo, podemos indicar “Malala: a criança que queria ir para a escola”, escrito por Adriana Carranca que conta a história real da criança que hoje é ativista da ONU e ganhou o prêmio Nobel da Paz.

Decidi que não iria encher meu artigo com indicações de leituras, mas sim, alertar os bibliotecários e bibliotecárias para o seu papel enquanto incentivadores do empoderamento feminino e, quem sabe, ensinar aos meninos a carga de machismo que lhes é destinada culturalmente apenas por serem meninos. Se trabalhamos em uma biblioteca frequentada por crianças, temos a possibilidade de ler os livros e entender o quanto eles influenciam as mentes pueris. Uma menina negra que cresce lendo livros de princesas brancas, uma menina que cresce lendo livros onde ela não pode fazer escolhas e sempre precisa ser salva... não podem se sentir representadas. A representatividade importa. Vamos dar oportunidade às meninas, às futuras mulheres e às possíveis escritoras que elas serão. A biblioteconomia precisa de uma mudança drástica de pensamento e produção, partindo dos acadêmicos e docentes que formam os futuros profissionais. Somos incentivados a oportunizar a leitura aos usuários, mas nós mesmos ficamos para trás quando se tratam de leituras sobre política, feminismo, racismo, direitos humanos e temas transversais. Talvez porque nós não tenhamos muitos livros para ler que nos representem.

A biblioteconomia não deve apenas ficar a par desses assuntos; deve abraça-los e repassá-los. Então, um recado especial às bibliotecárias que estão lendo este texto: estudem feminismo, empoderamento e sororidade. Repassem suas leituras, repensem porque a maioria dos profissionais da área são do gênero feminino, por que isso ocorre, que diferença você pode fazer e qual nosso papel enquanto mulheres, feministas e bibliotecárias na sociedade.

Sites visitados:

https://100meninasnegras.tumblr.com/
http://www.portalraizes.com/13livrosdireitoshumanoscriancas/
http://blogueirasfeministas.com/2011/05/livros-de-autoras-mulheres-sobre-mulheres/
http://ataba.com.br/8-autoras-brasileiras-que-toda-mulher-precisa-conhecer

Ler 4763 vezes Última modificação em Domingo, 26 Junho 2016 14:41
Larah Pimenta

Larah Pimenta é bibliotecária, formada pela Universidade Federal do Ceará. Seu maior desejo é que a prática bibliotecária seja parceira no empoderamento feminino.