Bibliotecário Viaja

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Museu Arcade - Rússia

Moscou, 1971. Uma exposição de tecnologia no Gorky Park trouxe à União Soviética, pela primeira vez, máquinas que faziam sucesso nos fliperamas norte-americanos, como pinball e antigos jogos eletro-mecânicos de led. Reza a lenda que milhares de pessoas se acotovelaram em uma fila quilométrica, a fim de experimentar a novidade que vinha do outro lado do mundo. Não demorou muito para que os soviéticos começassem a construir suas próprias máquinas de jogos eletrônicos, de início apenas para treinamentos militares. Logo surgiram máquinas destinadas ao entretenimento; era comum encontrá-las em parques, acampamentos de verão e até em estações de metrô espalhados pelas cidades soviéticas, onde os camaradas podiam experimentar a novidade por 15 copeques (o equivalente a 15 centavos de rublo, a moeda russa).

Enquanto no Ocidente os jogadores olhavam entusiasmados para o revolucionário Pong e a chegada dos novos consoles domésticos, como Odyssey e Atari, os soviéticos se divertiam com jogos como Skachki (corrida de cavalos), Magistral (jogo de corrida para dois jogadores), ou Snaiper-2 (tiro com espingarda).

Décadas depois, trazer as velhas máquinas soviéticas de jogos de volta à vida é a proposta do Museum of Soviet Arcade Machines, diante de um público que em boa parte desconhecia os ancestrais dos consoles modernos. Inaugurado em 2007 na capital russa, o Museu foi idealizado por três amigos saudosistas que inicialmente queriam apenas encontrar uma antiga máquina de Morskoi Boi. O empreendimento fez tanto sucesso que recentemente foi inaugurada uma filial na cidade de São Petersburgo. No museu há cerca de 50 máquinas, todas fabricadas nos anos da Cortina de Ferro. O diferencial do Museum of Soviet Arcade Machines é a interatividade. Lá o frequentador não apenas conhece a máquina, mas pode jogá-la. O ingresso dá direito a 15 moedas que podem ser utilizadas em 15 aparelhos diferentes.

Estive no museu em agosto de 2015 e pude experimentar a maioria das máquinas. A qualidade dos jogos, em geral, é surpreendente. Talvez, em termos gráficos, fiquem abaixo dos jogos produzidos à época nos Estados Unidos, mas é uma diversão e tanto testar jogos tão peculiares e desconhecidos entre nós. Há uma ampla variedade de temas que vão de guerras a esportes. O que mais joguei, o que rendeu as partidas mais emocionantes e disputadas, foi uma máquina de basquete. Não era exatamente um jogo eletrônico, mas uma espécie de pebolim (o popular totó). 

Outro que chama muita a atenção, apesar de sua simplicidade, é Morskoi Boi, jogo em que você controla um lança-mísseis para derrubar embarcações navais inimigas. Esse foi um dos que fizeram mais sucesso entre os soviéticos quando de seu lançamento e você pode inclusive testá-lo aqui.

E, caso um dia for visitar a Rússia, visite o museu, vale muito a pena.

Página do museu: http://www.15kop.ru/en/

Fernando Silva

Sobre o autor: Fernando Silva é bibliotecário graduado pela Universidade de Brasília e possui mestrado pela mesma instituição. Já atuou nas áreas de processamento técnico, desenvolvimento de coleções e obras raras. É frequentador de bibliotecas há 10.000 anos e trabalha em uma a 13.